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A Decifração Mágica dos Signos
por Jerusa Pires Ferreira
(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – jpfer@uol.com.br)
Ao lidar com um universo de letra e voz que caminha das
tradições orais de poeticidade ancestral ao texto popular impresso de larga
circulação e vice-versa, necessitei de longos anos para acompanhar de que modo
transcorria o regime de uma tradição editada, a construção de linguagens no
mundo da página que se oferecia.
Constata-se que no âmbito de sistemas mágicos, religiosos
há por lado um imaginário espraiado e uma espécie de corpo de representações
difusas presentes em repetidas situações. Mas podemos também falar, por sua
vez, de um imaginário concentrado que,
transitando por alguns limites infringidos a certos sistemas e linguagens, nos
remetem ao mundo das linguagens
secretas, aos territórios da decifração, às sucessivas passagens da
margem para o centro, sucessivamente. Conforme nos sugere José Manuel Pedrosa
há todo um patrimônio que transita pelas gerações e que se mantém na memória
das comunidades encontrando seus espaços seus espaços nas edições populares. Um
arraigamento plurilingüístico e pluricultural, ele nos diz; eu diria uma
síntese de culturas relegadas.
É preciso lembrar
mais uma vez que os cripto-textos estão amparados por uma intensa tradição oral
e que o espaço de ritos ocultos ou que se foram tornando ocultos constituiu uma
garantia e fonte contínua de produção desses textos que podem passar, por
exemplo, da tradição a uma massificação e a uma apropriação de superfícies.
É então que se pode acompanhar todo um regime de signos
ambíguos, ou de signos intensos e fortes, inequívocos, respectivamente.
Estamos diante de uma evidência, a de que nas páginas
impressas destes textos populares pode-se falar de palavras espacializadas, de
marcas que têm poderes alusivos ou de designação, de complexas relações
texto-imagem. E ao observá-lo, até podemos propor uma nova categoria, a
performance do escrito/impresso, seus grafemas e a utilização de imagens que
pertencem a um grande arquivo espécie de uma apocrifia virtualizada e muitas
vezes diretamente mistificadora.
Ao tratar de alguns segmentos vivos e presentes do livro
popular, e em especial no Livro de São
Cipriano
que estudei exaustivamente, lidei por muito tempo com algumas colagens
estranhas, com textos vivos que iam formando verdadeiros compostos de Magia.
Saberes recalcados, perseguidos, reunindo-se em conjuntos que tanto apelavam
para textos míticos como para orações, evocações etc.
Numa dramatização ao gosto dos públicos populares, aparece
uma disputa de saberes que implica em conversão ou castigo, e sobretudo em oralidade.
Começa uma outra parte com instruções a todos os
religiosos, avisos de cuidados quanto a diagnósticos, doenças, fantasmas, sua
definição e estratégias para enfrentá-los, seguindo-se exorcismos para expulsar
os diabos do corpo. “Os Bruxedos de São Cipriano” é um texto de alguém que
pretende teorizar. “A História Medieval de Curas Milagrosas”, supostamente
encontrada no manuscrito de São Cipriano, é também uma seqüência destacada.
Mas, de repente, encontramos algo que não estava previsto e que só nos espanta.
É a “História da Imperatriz Porcina”, que não é muito corrente nos livros de
São Cipriano.
Conta-se no livro de Molina esta estória, numa versão
arcaica em prosa, que tem muita graça. As peripécias de Porcina formam um dos
nossos Cinco Livros do Povo
que Câmara Cascudo estudou e apresentou tão bem, mostrando sua presença
marcante na tradição popular portuguesa e brasileira. Em Portugal, a Imperatriz
Porcina foi cantada por Baltazar Dias, um poeta cego, natural da Madeira e
considerado por Teófilo Braga como o escritor “clássico” do povo português. Ele
deve ter conhecido versões provenientes da França que tratam desta mulher casta
e inocente, aviltada e caluniada por seu cunhado, dos seus sofrimentos e depois
salva por intercessão da Virgem Maria.
Sabemos que se trata da célebre legenda de Crescência, que
ocupou a imaginação da Idade Média européia. O conto situa-se, ao que parece,
entre 1135 e 1150 e a fábula contém o motivo da mulher acusada injustamente por
um pretendente rechaçado, seguindo-se a confissão dos seus perseguidores e o
reconhecimento de sua pureza. Existe na Alemanha um livro popular, o de
Crescência, datado do século XVI, dos primeiros anos da imprensa. Fala-se da
existência de versões paralelas orientais, havendo também uma versão árabe
intercalada em As Mil e uma Noites.
Mas comparece nestes livros todo um aparato misterioso, uma
sucessão de objetos mágicos, de aparelhos para a operação mágica, com sua
representação visual. Num dos livros desse grande corpus móvel e que continua
ser editado no circuito das edições populares, descreve-se um livro de magia,
na tradição dos antigos Grimórios, “banhado na grande laguna dos dragões
vermelhos onde é impossível que algum elemento do universo seja destruído”. A
questão da indestrutibilidade dos objetos confere o mistério necessário. Quando
se trata do Livro o processo tem
ainda mais força, para criar mistificações que funcionam até como estratégia de
propaganda. Há também uma curiosa menção à indestrutibilidade das suas folhas e
o seu destino será parar, quer se queira ou não, no dormitório de quem o
possui. Interessante é que alguns livros de São Cipriano recomendam que não se
deve passá-los para o dormitório. Sabemos que uma ordem assim é conflituosa
gerando sempre curiosidade e convidando à transgressão.
A Decifração Mágica dos Signos
A letra misteriosa, não decifrável para leigos, permite
todo o ritual em que se identificam aqueles que conhecem. Aqui se dá ao leitor
a noção de participação iniciática; procura-se envolvê-lo no processo de
decifração mágica do signo:
“Com grande admiração pude ler o escrito, com a mesma
facilidade como se lesse um livro em meu idioma”. Diz o autor ter voltado
várias folhas e ter achado desenhados um dragão e uma cabra em atitude
tranqüila, colocada esta sobre aquela. A cabra tinha trançados sobre os seus
joelhos uns hieróglifos que diziam: ARTE.
É extraordinária esta aproximação e, mais, o texto parece
adquirir uma dinâmica interna só conseguida por alguém que maneje muito bem o
ofício de escritor, a mestria de narrar e de construir linguagem:
“Tudo parecia
estranho e ao mesmo tempo familiar, à medida que eu o olhava; todavia me estava
sendo reservada a maior das surpresas: o dragão e a cabra começaram a
animar-se, a mover os olhos, a aumentar de tamanho e finalmente saindo do
livro, se prostraram diante de mim dizendo com voz humana: - Sou seu servo;
manda e serás obedecido”.
Esta animação, esse trânsito de signos visuais, de símbolos
transformados em personagens vivas saltando do texto, é conseguido com grande
perfeição, e eu chego a ver nessa poética uma realização plena. Aqui não se
pode falar de popular ou não popular, mas de um texto primoroso contido num
livro de magia, recriado e transmitido.
Diz o autor que, com a intenção de estar precavido para as
contingências do futuro, procurou tirar uma cópia do conteúdo do livro, cujo
título na portada é: Tratado Completo de
Verdadeira Magia ou O Tesouro do
Feiticeiro. Dedica-o ao novo adepto das ciências desconhecidas (não fala de
ocultas) e coloca embaixo a assinatura de Lúcifer, atendendo aos apelos desta
operação que se dirige ao popular. Apesar de aí se advogarem as práticas de
feitiçaria, a ordem é a conversão ao cristianismo, o sincretismo, o jogo entre
as forças do bem e do mal, tendendo à vitória do chamado bem.
Há neste texto uma profusão de sinais, talismãs, amuletos,
páginas inteiras que tratam de objetos em sua variedade, varas de castigar
demônios etc. são formulações que têm o requinte que nós já perdemos; por
exemplo, o nome da varinha feita para castigar demônios é vara boleante ou férula
fulminante, o que encantava o
poeta Haroldo de Campos.
Estes achados e sutilezas de nomenclaturas e atribuições
são os que a vida cotidiana desgasta e destrói, são os mistérios que
desbaratamos. Desfilam aí páginas inteiras dando nome às coisas, varas mágicas,
bastões, facas, descrição e imagem, toda esta parafernália descrita e mostrada,
que vão envolvendo o leitor e se encarregando de introduzi-lo, como iniciado, naquele
mundo.
Assim, tem grande relevo a parte que trata dos vestidos
mágicos; que nos lembram irmãos Grimm e
de suas recolhas de contos de fadas. Tudo isto tem a ver com eles, as receitas
de como preservar vestes inconsúteis (sem costura), as fórmulas das tintas
mágicas, os fios de ouro, de prata, as palavras gravadas, os caracteres. Há
toda uma necessidade do visual, da representação gráfica e uma constante
tradução de linguagens.
A composição de tinta com a qual se assinará o pacto merece
aqui um tratamento em
detalhes. Recomenda-se que os pactos não sejam escritos com
tinta ordinária, e pede-se para mudar de tinta, cada vez que se faça um novo
chamamento. A presença do signo de Salomão, o anel, as estrelas, as cores, as
formas, os talismãs.
Evocando a capacidade de entrever, de sonhar, de
compreender que os mistérios são feitos de minúcias e que a vida aponta para a
eternidade, se composta por rituais, na expressão de seus signos.
Tudo isso me leva a pensar nos elementos organizadores de
princípios de performances do oral ao
impresso, situando-se em relações tempo/espaço em que o oral se situa e define,
nasce de uma ação mágica, nos relances de um encontro entre as partes que
procurei chamar fascinação.
É V.V. Ivanov, semioticista soviético, em sua original
autobiografia, que nos remete a Knorózov, vendo a fascinação como um método
especial de comunicação estética e ritual. Diz-nos que esta noção de fascinação
acrescenta algo às funções da linguagem dadas antes por Bühler e Roman
Jakobson.
Mihail Popp, o
etnógrafo romeno, traz-nos a importância das relações entre ritos, mitos e
narração. Chamando a atenção para aspectos de ritualidade e não-ritualidade,
sagrado e não-sagrado, verídico e não-verídico e sobretudo para a fantasia
poética em si mesma, que constitui tão importante domínio. Sugerindo algo mais,
ele consegue ver o relato como um ato semiótico, observando a convergência e
divergência entre categorias, e determinando a significação de cada categoria
como um signo.
Tudo isso se configura no sentido da apreensão entre o que
alguém nos diz, comunica, revela ou fascina. De repente, um narrador lembra-se
de algo que lhe faz brilhar os olhos e transmite-nos um quê desta iluminação.
De pronto, a memória reacende-se num fluxo ininterrupto que nos desperta
associações contínuas ou há algo no seu dizer que vai ter a força que
suspeitávamos e que se faz imantar como limalhas.
No belo livro Sud e
magia, Ernesto Martino discute as relações entre história, magia e
ritualidade, referenciando-as a uma esfera das técnicas mito-rituais, que
evidenciam a potência mágica da palavra e do gesto. Sem querer entrar em
questões de magia propriamente dita ou de ritual em si, o que se destaca aqui
em nossa abordagem, como importante para a percepção daquilo que pode ser um
encontro para a apreensão do instante da oralidade é a fascinação, dentro do processo transmissivo, como um todo. Há uma
espécie de elemento orgânico e ainda um ato que recupera e transmite fragmentos
de algo que conduz as forças internas e externas de quem ouve e de quem escuta,
e nosso caso de que tratamos, em extensão, de quem lê ou vê, mesmo que já a
receba em regime de apropriação mistificadora.
Há nesse livro de Martino alguns elementos que podem ser
aqui trazidos para avaliar a transmissão e situar a apreensão daquilo que se
diz. Chegam até nós os impedimentos, resultantes de inibição ou de fusão. Às
vezes parece que se articulam nesses atos de escutar/ver/aprender antigos
gestos rituais, pulsões que tanto trazem a força de grupos sociais quanto os
impulsos de alguém em situação dramática, mágico-transmissiva. Ao tratar do seu
tema, levanta a questão interessante de uma ordem meta-histórica, de um certo
espaço indefinível de interação do rito, a criação de uma espécie de pacto
entre quem diz e quem ouve, a conversão possível, a operação que cria uma
pactuação rumo ao entendimento, que compreende tanto razões empáticas
quanto simpáticas, racionais e não-
racionais ao mesmo tempo.
Em outra instância devo lembrar que, ao dizer e ao escutar,
conta-se com a força dos repertórios das leituras ou do que se ouviu ler ou
contar. Num projeto que inclui vários trabalhos, Matrizes impressas do oral, estou tentando mostrar como certos
textos orais e populares organizam-se a partir de duas matrizes: aquela que se
constrói a partir dos assentamentos de uma memória ancestral e a que está
diretamente ligada a um texto impresso ou a repertório de textos impressos mais
imediatamente acessíveis. Ora, tudo isso tem de estar presente, em se tratando
de uma avaliação, quer de um texto narrativo ou de uma poética. A identificação
desses enredos com os futuros atos narrativos e performáticos é inevitável.
Dizer é também recriar antigas estórias ouvidas, lidas, vistas, apreendidas.
Neste fim de século uma das grandes riquezas é a
comunicação em presença, a energia, o envolvimento multi-sensorial que inclui,
entre outras, a categoria da fascinação. O circuito que se abre e completa
provisoriamente, abrindo para novos textos e para outras significâncias é a
garantia do alcance mais pleno da comunicação humana.
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Biografia
Jerusa
Pires Ferreira nasceu em Feira de Santana (Bahia). Bacharel em Letras pela
UFBa, em 1967, onde foi, por muitos anos, professora de Literatura Portuguesa.
Dedicou-se a temas medievais e à Novela de Cavalaria. Bolsista do Instituto de
Alta Cultura, em Lisboa, escreveu O Tapete Perceptivo de Palmeirim de
Inglaterra apresentado como tese à UFBa. Freqüentou em 1975 e 1976 os
Seminários de Urbino (Itália). Mestre em História Social pela
UFBa em 1977, Doutora em
Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo em 1980.
Desenvolveu pesquisa de Pós-doutoramento sobre o Fausto, na Alemanha (Erlangen
Nürnberg), convênio DAAD/FAPESP, e também sobre “matéria arturiana” e o tema de
Carlos Magno na Literatura Popular, em Lisboa. Livre-docente
pela Universidade de São Paulo em 1988. É professora da ECA-USP, onde criou uma
linha de pesquisa sobre memória editorial e disciplinas sobre livros e edições
populares. Ali orientou teses sobre memória editorial, além de criar e
coordenar projetos, a exemplo de Editando o editor, em curso. Autora de
inúmeros trabalhos que pensam a cultura popular em suas relações com outros
segmentos culturais, publicou: Cavalaria em Cordel (São Paulo, Hucitec,
1979,1993); Jornadas Impertinentes, organizadora (São Paulo,
Hucitec, 1985); Armadilhas da Memória: conto e poesia popular (Salvador,
Fundação Casa de Jorge Amado, 1991); O Livro de São Cipriano: uma legenda de
massas (prêmio Jabuti; São Paulo, Perspectiva,1993); Fausto no Horizonte
(São Paulo, Educ, 1996). Armadilhas da Memória e outros
ensaios. (2ª edição. São Paulo: Editora
Ateliê, 2004); Os Trabalhos da Luz (Coleção
Memo. São Paulo: Memorial da América Latina, 2006); Tereza Batista –
texto e imagem: um livro de exemplos (Salvador: Fundação Casa Jorge Amado,
2006). Professora
do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo onde dirige o Centro de Estudos da Oralidade
e o projeto de Tradução da obra de Paul Zumthor: Performance, recepção e leitura (2ª edição. São Paulo: Cosac &
Naify, 2007); Escritura e Nomadismo (São Paulo, Ateliê Editorial, 2005),
Performance, recepção e leitura (São Paulo, Educ, 2000); Tradição e
Esquecimento (São Paulo, Hucitec, 1997); A Letra e a Voz (São Paulo,
Companhia das Letras, 1993); Introdução à Poesia Oral (São Paulo,
Hucitec, 1998); Falando de Idade Média
(São Paulo: Editora Perspectiva (no prelo). Professora convidada de várias universidades
estrangeiras e particpante de projetos de pesquisa junto às de Ottawa/Canadá,
na área de Transferências Literárias e Culturais e de Alicante/Espanha
ao projeto Teoría de la
Unidad Cultural de Europa, coordenado pelo professor
Pedro Aullón de Haro. Dirigiu
tese de doutorado no Departamento de Artes da Universidade Autônoma de
Barcelona, onde faz progredir um projeto de cooperação científica juntamente
com o Professor Antoni Rossell desta Universidade.
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