GHREBH-, em indoeuropeu significava 'cavar, escavar', transformou-se, no germânico antigo, em /graban/ com o significado de 'escavar' ; transformou-se também em /graver/ (francês) com o sentido de lavrar em oco ou em relevo uma inscrição ou figura. As variantes GEREBH- ou GERBH- significam 'riscar, arranhar'. Dão origem ao anglo-saxônico /ceorfan/ 'recortar', ao alto alemão antigo, /kerban/ 'fazer uma incisão', ao norueguês / krabbe/ 'escavar'. Em grego deu /graphein/, como 'gravar, lavrar em baixo ou alto relevo uma inscrição ou figura, escrever'. Em latim /graphium/ significa 'estilo, ponteiro para escrever na cêra' e /graphiarium/ quer dizer 'estojo para guardar os estiletes com que se escrevia'. Dessa raiz comum vieram todas as palavras derivadas e compostas de gravar e grafia como biografia, gráfico, grafite, parágrafo, gravação, gravura. Também dessa mesma raiz provém o gre o /gramma/, com o significado de 'letra, linha' e seus compostos e derivados como programa, gramática, epigrama, anagrama, cardiograma e telegrama. (Fontes: Roberts/Pastor, Diccionario etimológico indoeuropeo de la lengua española; Kluge, Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache; Faria, Dicionário escolar latino-português; Pokorny, Indogermanisches Wörterbuch)
BRASIL número 10| são paulo | junho de 2007   ISSN 1679-9100
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de nosso nascimento.
Ouvimos os outros antes
de vê-los, senti-los ou tocá-los.

Christoph Wulf



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Cultura Comunicacional Tecnológica: o Retorno do Jogo da Transcendência e Imanência
Technological Communication Culture: the Return of the Transcendence and Immanence game

 

por Leonel A. de Aguiar
(Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro -laaguiar@uol.com.br)


Introdução


Na Contemporaneidade, a relação entre transcendência e imanência retorna como uma questão para o pensamento. Sabemos que há um episódio moderno – o anúncio nietzschiano da “morte de Deus” – e um efeito contemporâneo: o vazio decorrente deste evento. Como a cultura contemporânea não vive a experiência deste vazio, realizando a passagem direta à imanência, esse episódio moderno vai pedir a entrada em cena do jogo da transcendência e imanência.  A perda da referência dispõe o homem contemporâneo ao contato com a imanência e a transcendência através dos processos de virtualização e informatização constituintes da cultura comunicacional tecnológica: se não funcionam mais as estruturas de referência, não há mais o Outro, pois o desejo de alteridade acabou.
Mas apostamos também ser possível pensar a potência liberadora desse episódio moderno: ausente “Deus”, apresenta-se o vazio. Pensar a ausência e a presença do transcendente na Contemporaneidade através de uma pergunta genealógica é produzir o pensamento como modo vital, realizar uma proximidade entre pensamento e vida. Se a Contemporaneidade já demonstrou a validade política e ética do projeto de destruição da transcendência e a liberação da imanência, devemos denunciar a assimilação feita entre transcendência e transcendente.
Eis algumas questões: se a decretação da “morte de Deus” implica na separação entre o transcendente e a transcendência, eliminado o transcendente, está também eliminado o movimento de transcendência?  Então, o que é liberado é a imanência?  Ou se dá a liberação da transcendência, entendida como movimento de alterificação, desejo de multiplicidades, desejo do Outro, movimento do pensamento em direção ao não-ser?  Em suma: esse o episódio moderno – o fim do transcendente – apontou para a abertura da imanência e para a emergência da cultura comunicacional tecnológica contemporânea.

Morte de Deus


A cultura comunicacional tecnológica está fundada sobre a imanência [1] . Esta afirmação implica em produzir uma genealogia que nos permita compreender o sentido de naturalidade e o processo de naturalização construídos na Contemporaneidade: para que nos parece óbvio que uma cultura como a nossa – um paradoxo situado entre o moderno e o contemporâneo [2] , na qual ainda é possível preservar a verdade, desde que entendida não mais em seu lugar clássico de adequação, ligada à referência e a representação – só possa vigorar segundo um estatuto de imanência?  Respondemos: para funcionar; e, já que o interesse contemporâneo é pela eficácia tecnológica e pela funcionalidade, esta cultura precisa dispensar a transcendência.  “A imanência não se remete a Qualquer coisa como unidade superior a toda coisa, nem a um Sujeito como ato que opera a síntese das coisas” (Deleuze, 1997: 16).  Isto é, o plano de imanência não se define por um Sujeito ou por um Objeto capazes de o conter.
Se o regime de realidade da cultura comunicacional tecnológica é o regime da imanência – ou seja, o fechamento do mundo sobre si mesmo –, as dimensões da transcendência apontam para um “há-mais-que” e nos remete para a questão da diferença.  A perspectiva heideggeriana pensa a transcendência como âmbito da questão da essência do fundamento: “a transcendência é a ultrapassagem que possibilita algo tal como existência em geral e, por conseguinte, também um movimentar-‘se’-no-espaço” (Heidegger, 1979: 104).  Mas a transcendência não é a negatividade.  Em Levinas, a transcendência como idéia do Infinito serve para fazer a diferença entre a transcendência filosófica e a transcendência das religiões: transcendência designa, então, uma relação com uma “realidade infinitamente distante da minha, sem que essa distância destrua por isso esta relação e sem que esta relação destrua essa distância” (1988: 29).
Entre propor uma filosofia da transcendência – que situa no Além a verdadeira vida à qual o homem teria acesso – e uma filosofia da imanência – que capta o ser quando inteiramente Outro englobado pelo Mesmo –, é possível ter, como escolha para o pensamento, um modo de descrever a relação com o Outro, a qual não é uma totalização da História nem desemboca numa totalidade divina ou humana.  É preciso romper com o que o projeto filosófico do Ocidente, na maioria das vezes, sempre foi: uma redução do Outro ao Mesmo, pela intervenção de um termo médio e neutro que assegura a inteligência ao ser.  A primeira lição de Sócrates, o inventor da Filosofia ocidental, foi o primado do Mesmo.
Identidade produzida como ausência da diferença leva à convergência do Mesmo com o Mesmo.  Lembremos a leitura igualitária do princípio da identidade feita por Heidegger: a igualdade como indiferenciação acaba por produzir a indiferença, que produz o regime do mal e a eliminação do Outro.  “Pela representação da totalidade do universo técnico reduz-se tudo ao homem e chega-se, quando muito, a reivindicar uma ética para o universo da técnica” (Heidegger, 1979: 183).  Assim, se o grande episódio moderno, aquele considerado como o acontecimento radical da Modernidade, foi o fim do transcendente – conforme anunciou Nietzsche, “o maior dos acontecimentos recentes, que Deus está morto” (1978: 211) –, a cultura comunicacional tecnológica contemporânea faz a experiência do “pleno-de-mundo” e não a experimenta como o vazio resultante desse anúncio filosófico.  Isto acontece porque, na Contemporaneidade, as formas modernas de apreensão da transcendência – a História, a Revolução, a Sociedade – foram sucedidas por atitudes de desencanto que apontam para o fim da História e o fim do Social [3] .

Tecnologia e imanência

Na transição da Modernidade para a Contemporaneidade, deu-se um salto direto à imanência do mundo que trouxe junto à abolição da transcendência.  “A imanência é o mundo, o nosso mundo, o mundo que nos é dado e onde o Outro mais não é do que o Mesmo” (Levinas, 1991: 04). Nesta transição, a transcendência deixou de ser percebida como o movimento na direção do Outro e passou a ser identificada com o ente transcendente, o Transcendente, Deus. Eis diferentes produções do acontecimento: se a “morte de Deus” – o mais característico acontecimento moderno – acarreta o vazio, a proposta que está em jogo é a experiência do vazio; entretanto, este mesmo acontecimento também pode apontar para um mergulho direto na imanência, sem necessitar viver a experiência do vazio. O problemático é que a entrada direta na imanência exclui o Outro: tudo passa a estar instalado em um mesmo plano de imanência e não há mais alteridade.

“Morte de Deus” não é uma provocação anti-teísta, mas, também, não é simplesmente o fim da formulação de Deus como ser supremo mantenedor do sistema de valores, conforme construída pela Metafísica clássica ocidental, pois é o deslocamento da destituição da referência: crise da referência como um sofrimento que se pode ler em Nietzsche, Heidegger e Foucault. É o desconhecimento deste acontecimento radical – a abolição da diferença – e do seu efeito imediato – “a morte de Deus” – que leva à entrada direta na imanência. Esse mergulho no plano da pura imanência se dá de uma forma “direta” porque a cultura comunicacional tecnológica contemporânea não vive a experiência do vazio ocasionada pelo fim do Transcendente.

O anúncio nietzschiano da “morte de Deus” – no qual Klossowski entende Deus como “o fiador da identidade do eu responsável" (2000: 253) – é um acontecimento moderno que vai criar as condições de possibilidade para a constituição de uma nova cultura – a cultura comunicacional tecnológica contemporânea – tendo em vista, exatamente, a configuração cultural moderna. Os três eixos constitutivos da cultura ocidental – os fundamentos, as referências e as representações – entram em crise no século XIX, quando se assinala o ingresso do tempo na Modernidade.  Recordemos: do ponto de vista da Metafísica clássica – o sistema de pensamento hegemônico do percurso histórico do Ocidente –, o tempo é o fundamento do ser. A reviravolta no pensamento metafísico aparece com a perspectiva heideggeriana, que recua para fazer a experiência do ser sem referência ao ente: tempo e ser como simultâneos, a passagem para o “dá-Se”, “dá-Se ser, dá-Se tempo” (Heidegger, 1979: 267). 

O acontecimento instituinte da cultura contemporânea é a junção de paradoxalidades, de termos até então paradoxais em uma reunião impensável: techné mais logos, produzindo um acontecimento contemporâneo, a tecnologia. Tecnologia não é, portanto, aquilo que parece indicar, ou seja, o conjunto do aparato técnico produzido pela ciência: tecnologia implica em uma visão técnica do mundo, onde vigora a eficácia e a utilidade. Tecnologia é o lugar onde o ser se retrai maximamente, onde não há mais intuição das alteridades. Se a cultura moderna é uma cultura histórica, a cultura contemporânea emerge como uma cultura marcada pela tecnologia: uma cultura tendencialmente a ser construída pelas novas tecnologias de informação e da comunicação.  É na paradoxalidade do moderno com o contemporâneo que a sentença se torna mutante e mutável, pois se trata da interface sobre dois conjuntos – o conjunto “tecnologia” e o conjunto “História” – que pode ser sintetizada como: se tecnologia é História, a História é tecnologia.

Viver em plena paradoxalidade moderno-contemporâneo quer dizer que somos contemporâneos da crise dos fundamentos do século XIX e dos efeitos dessa crise e aponta para a dissolução do pensamento filosófico nas ciências tecnizadas. Na Contemporaneidade, o pensamento filosófico encontra seu lugar no caráter científico com que a humanidade se realiza na práxis social e, como o caráter específico desta cientificidade é de origem técnica, provavelmente desaparecerá a necessidade de “questionar a técnica moderna, na mesma medida em que mais decisivamente a técnica marcar e orientar todas as manifestações no planeta e o posto que o homem nele ocupa” (Heidegger, 1979: 73).  Progressivamente, as fronteiras e as antinomias que balizavam a Modernidade – entre natureza e cultura, humano e inumano, sujeito e objeto, ente e artefato – irão se diluindo.

Como herança moderna, a Contemporaneidade recebe o fim dos fundamentos, a denúncia da referência como relação de poder e a aniquilação da representação como modelo de verdade. É este também o momento em que a tecnologia emerge como contração do “saber-saber” – logos – com o “saber-fazer” – techné –, de teoria e prática, de cultura e natureza: “a tecnologia é um saber-fazer que sabe saber (fazer)” (Amaral: 1996a: 17). Cria-se uma indiferenciação relativa das marcações antes bem demarcadas, onde natureza era o lugar da aparência, dos entes naturais operados pela Razão, e a cultura era o lugar da verdade, o lugar do Ser. Essa é a marca constitutiva do primeiro momento da Metafísica, momento em que o idealismo platônico e o realismo aristotélico enfrentam o problema do modo de diferença entre physis e logos. No platonismo, aprofunda-se a separação de logos e physis: de um lado, o mundo inteligível, a Idéia; de outro, o mundo sensível, as sensações. Na Contemporaneidade, esta contração apontada no termo tecnologia – techné e logos – elimina o regime de fazer diferença.

Deste modo, o processo da cultura comunicacional tecnológica contemporânea se torna o da mediação generalizada, da produção simultânea de sujeito e meio, onde ser sujeito significa passar pelo meio onde se encontram sujeito e objeto – um funciona como o meio do outro. Os avanços da tecnologia – com destaque para a revolução digital e os artefatos dotados de larga capacidade de processamento de informação – multiplicaram os fluxos de objetos técnicos que atravessam as sociedades contemporâneas e induziram a constituição de um campo de mediação generalizada, em cujo centro está instalada a própria tecnologia. A generalização da mediação técnica acarreta transformações profundas nos modos de atuação da maior parte das práticas produtivas. Eis o sentido de contemporâneo: uma relação inédita com o tempo, de experimentação das condições de temporalização, da extinção dos pólos modernos da comunicação pela mediação generalizada; enfim, contemporâneo é uma relação de experimentação da informação como seu regime de constituição. É o que nos diz a sentença heideggeriana: “a cibernética transforma a linguagem num meio de troca de mensagens” (Heidegger, 1979: 72).

Apontemos o vigor desse acontecimento constituinte: o advento da tecnologia como radicalidade fundadora que dá início à visibilidade do contemporâneo tem a forma de uma cultura que se deixa determinar a partir do tempo e com o tempo.  Temos, então, uma questão que se torna indecidível: afinal, o tempo entrou em cena porque se quebraram os fundamentos ou os fundamentos se quebraram porque o tempo entrou em cena?  Deste modo, se a “morte de Deus” é um fato moderno, que pode ser lido também como a morte do Homem – pelo menos, do Homo Universalis inventado pelo Iluminismo –, pode não mais fazer sentido – como fato – quando a tecnologia advém.  A Contemporaneidade lida, no entanto, na direção do sentido e não na direção do fato: se for como cultura que este acontecimento aparece, o fato “morte de Deus” precisa encontrar um sentido, senão desaparece. Na cultura contemporânea, será no regime da temporalização – onde a experiência da temporalização é a forma própria de experimentar a crise dos fundamentos do século XIX – do que significa a “morte de Deus” que este fato moderno será revisitado como sentido e passará a significar, contemporaneamente, o vazio.


Vazio de moderno



Algo vigora, entretanto, no dar-se contemporâneo como vazio.  No regime temporal que pertence ao dar-se contemporâneo, a experiência estrutura o contemporâneo como vazio – experimentado como o vazio de moderno, ausência dos eixos estruturantes modernos, quais sejam, o fundamento, a referência, a representação. Se entendermos o contemporâneo como cultura que se estrutura no tempo, o dar-se contemporâneo como cultura é experimentado como um vazio de tempo, que se deixa determinar como falta.  Ou, por outra: o fato moderno da “morte de Deus” e a experiência contemporânea deste fato determinam, como sentido, o “tempo-que-falta”.  Como já ressaltamos, o fato “morte de Deus” é a passagem imediata para a imanência, onde este acontecimento moderno é sinônimo do fato da morte do Transcendente, do Ser como o ente supremo. Então, eliminado o Transcendente, o que deve restar é a transcendência e não a imanência. A questão é que a cultura contemporânea interpreta a imanência como esta sobra da eliminação moderna do Transcendente, abolindo o plano de transcendência junto com o Transcendente. O que resta desta sobra é a entrada direta na imanência como marca da Contemporaneidade.
A perspectiva teórica pós-moderna enfatiza que a cultura contemporânea é marcada, ao mesmo tempo, pela des-realização do mundo, pela des-subjetivação do homem e pela des-substancialização do mundo e do homem. É, enfim, um movimento de mediação tecnológica generalizada, onde desaparece a capacidade de fazer diferença que sempre marcou a cultura ocidental, apagando-se 23 séculos de separação entre logos e physis. A tecnologia emerge como regime de mundo que conhece e transforma simultaneamente, onde o ato tecnológico é um hiper-híbrido.  Entre a indiferenciação pós-moderna e a indiferença moderna, natureza e cultura misturam-se, com a tecnologia promovendo a junção de um “saber verdadeiro” (logos) que produz uma “prática eficaz” (techné).  Está, então, construído o mal-estar contemporâneo: entre a demanda da verdade e a simulação tecnológica, o princípio do mal que rege a cultura contemporânea aponta que o Outro pode perecer, desaparecer. 
Mais ainda: é esta cultura centrada nas tecnologias da informação e da comunicação, sustentada na produção de novidades, que conduz à indiferenciação e à indiferença, a indiferenciar pela indiferenciação e pela indiferença.  Ou, conforme ressaltamos: a cultura contemporânea está caracterizada pela tecnologia que, ao torná-la uma cultura tecnológica, marca – simultaneamente – a comunicação contemporânea e é marcada por esta comunicação tecnologizada.
Já afirmamos aqui que, no pensamento moderno, a cultura aparece como lugar da verdade, enquanto a natureza é o lugar da aparência, na dicotomia entre mundo ideal e mundo das aparências. Na Contemporaneidade, desaparece esta dicotomia e, junto com o desaparecimento da oposição distintiva entre cultura e natureza, desaparecem também a cultura e a natureza modernas: é na hibridação entre natureza e cultura que ocorre o processo de indiferenciação.  Assim, a crise pós-moderna do princípio de identidade é uma decorrência lógica da expulsão da alteridade, vista como a morte do Outro.  No campo pós-moderno, as teorias neocognitivistas bloqueiam as possibilidades de se pensar a identidade pensante do homem, a identidade consigo mesmo que faz, do homem, um pensamento. “A referência cognitiva, fornecendo o critério naturalizante da Diferença, é condição para a com-sistência de mundo com homem” (Amaral, 1996a: 15). O pancognitivismo pós-moderno – enunciado como “tudo pensa”, pois não só os viventes mas até os átomos são dotados de características mentais – reduz pensar a conhecer, de modo que conhecer é simples troca de informação com o meio. Como conseqüência do desaparecimento da diferença entre natureza e cultura, abre-se um regime de reflexão transcendental para acolher a questão para a qual aponta este sentido – a “morte de Deus”. Resta-nos uma dimensão transcendental e a questão da transcendência passa a ser associada à questão do tempo em um regime de falta. Levantemos, então, determinadas questões que nos permitam traçar a relação entre este fato moderno e o sentido contemporâneo deste fato, pensado a partir do tempo.
Sentidos do tempo

A cultura contemporânea é produtora de uma espacialidade, pois se abre uma dimensão de espaço – o espaço virtual, a realidade virtual (Lévy, 1995: 22) – como um fora, uma foreidade, mas também é aquela que se deixa afetar radicalmente pelo tempo.  Bem diverso, porém, era o sentido do tempo que o poeta Homero recitava na Ilíada: “o aedo é aquele que tem o conhecimento do que foi, do que é e do que será” (1980: 78).  O pensamento mitopoiético entende o tempo como simultaneidade: simultaneamente, aion – a ordem temporal regida pelo acaso, jogo do acaso, “tempo é jogo de criança” (Bornheim, 1985:39); kairós – momento oportuno, o melhor momento para a ocorrência de algo; kronos – a apreensão do tempo como o que resiste, o que dura, sucessão de momentos segundo uma ordem causal, na definição aristotélica. 
É exatamente a entrada em cena do tempo como simultaneidade, no século XIX, que coloca a cultura moderna em crise. Afinal, durante 23 séculos a partir da Filosofia socrático-platônica, a História da cultura ocidental pode ser construída pela associação entre ser e verdade, com a exclusão do tempo como simultaneidade. Quando o tempo entra em cena para fazer diferença, instala-se a crise moderna: o século XIX conhece a experiência da dissociação entre sujeito e verdade.  Até então, era a indissociabilidade de sujeito e verdade que dava garantias de referência e possibilidade de representação.
Se a Modernidade é caracterizada pela finitude e, conseqüentemente, pela abertura ao tempo como uma determinação, a consciência da finitude vem questionar aquilo que legitima suas representações e a historicidade do sujeito: homem se pensa como um ser duplo, passando a portar a consciência do tempo como determinação.  Na época clássica, o mundo era um autômato criado por Deus e ao homem – que estava situado fora do mundo descrito e representado – cabia explicar a ordem do mundo com conceitos. Ou seja, na visão da ciência clássica, a natureza, por ser semelhante a um autômato, podia ser apresentada como uma natureza sem complexidade e sem devir. 
Conforme aponta Foucault, na Idade Clássica, o discurso é essa necessidade translúcida através da qual “passam a representação e os seres – quando os seres são representados ao olhar do espírito, quando a representação torna visíveis os seres em sua verdade” (Foucault, 1999: 428).  Com a Modernidade, o homem se descobre constituído pelo tempo: sua finitude lhe permite se abrir ao próprio tempo, ao novo, ao que escapa a sua consciência e sua tarefa é reencontrar o impensado de seu pensamento.  “Todo pensamento moderno é atravessado pela lei de pensar o impensado” (Foucault, 1999: 450). O homem, por se colocar na perspectiva da finitude, pode conhecer a si mesmo e a natureza. Esta é a distinção moderna que separa cultura e natureza, o humano e o não-humano.  Tal distinção pode ser exemplificada com Darwin, para quem a natureza também está no tempo mas sem consciência de si.  Neste cientista moderno, a História da natureza é pura sucessão que só se dá através da História do homem como História do conhecimento humano.
Tempo significa também ethos, aquilo que está vinculado ao comportamento humano, à ética.  No antigo grego, ethos significa vizinhança, como Heráclito nos traz na sentença “ethos anthrópo daímon” (Heidegger, 1979: 170), que uma tradução heideggeriana pode entender como “o homem habita o divino”, de modo que habitar é durar no próprio lugar. Tal tradução do fragmento 119, oposta aos outros sentidos modernos [4] , entende que o homem habita, na medida em que é homem, na proximidade de Deus; ou seja, para o homem, a habitação – isto é, o ordinário, o familiar – é o aberto para a presentificação do extraordinário, do não-familiar, do “Deus”. A palavra “ética” medita a habitação do homem: assim, o tempo em Heráclito é o primeiro ser corpóreo, o puro devir, pois no tempo não é o passado e o futuro, mas somente o agora.
Eis o fluxo heraclitiano, a passagem, o trânsito: o tempo como origem que não cessa de começar. Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, pois “no mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos” (Souza, 1978: 84): impulsão que não cessa de começar. Dito de outro modo: aquilo que ocorre a cada momento é simultâneo à sua origem. A correlação transcendência-imanência – como movimento que se dá no volume do tempo, tal qual ele é experimentado contemporaneamente – pode ser uma maneira atual de lidar com este fragmento da obra de Heráclito: “tudo é um” (Souza, 1978: 85).
Por outro lado, a cultura contemporânea é também, em certo sentido sociológico, um “subgrupo cultural” da cultura ocidental.  Lançamos mais uma questão: como este Ocidente se produziu antes de assim ser denominado Ocidente?  Emerge uma cultura ocidental que é estruturada sob o desejo de Outro, sob o desejo de multiplicidades, de amor de mundo, que é capaz de excluir o mundo a fim de manter o desejo.  Construímos, então, uma hipótese genealógica capaz de dar conta da emergência do Ocidente: a cultura ocidental é um acaso grego estruturado sobre uma precariedade – o desejo de Outro, um “há-mais-que-homem” e diferente de nada, ou seja, as multiplicidades.  Uma cultura que é capaz de experimentar diferentes modos de viver as multiplicidades: em Heráclito, a experiência do ser dá-se como linguagem; em Platão, com o deslizamento metafísico, o ser dá-se como Idéia.

Considerações finais

Na Contemporaneidade, marcada pelas tecnologias de virtualização do mundo, o ser encontra-se em sua máxima ocultação: virtualidade fala da inconsistência do mundo, que encontra sua radicalidade tanto na Filosofia – com a negação da existência de um mundo real fora do Espírito, em Berckley (1980), por exemplo –, quanto na Física, onde uma das mais recentes descobertas – a partícula quark top – é uma conta numérica em que desaparece a materialidade. É a partir do Iluminismo – mais precisamente na segunda metade do século XIX – que a História passa a ser o modo de experimentar, no modo do que se apresenta, a falta do ser; isto é, a falta que o ser faz: o ser enquanto ser.

Na sociedade contemporânea das novas tecnologias de informação e da comunicação, a linguagem é o lugar da sedução, onde o ser retirou-se.  Mas a retração do ser destina ao homem diferentes configurações e, assim, é possível lidar positivamente com a cultura contemporânea enquanto um conjunto de discursos, práticas e instituições que experimenta o que se dá: experimenta o mundo, experimenta o virtual, experimenta a virtualização do mundo e o mundo virtual.  Quando a crise de referência – atingida a força desejante de haver-homem – se instaura no século XIX, não dispomos mais de mecanismos capazes de fundar e de representar o real: a referência abolida conduz à crise dos fundamentos e da representação. 

Com o episódio moderno da “morte de Deus” acabou-se a referência e não temos mais como nos referirmos ao Outro.  Recordemos: tempo e espaço foram pensados como referência física do real, onde o tempo estava associado à eternidade e o espaço, à homogeneidade. Agora, contemporaneamente, abre-se uma questão que antes era resposta no par transcendência e imanência, pois dizia como é que se apresentava o Outro. Ou melhor, a transcendência pode ser entendida como um movimento na direção do Outro.  É preciso, entretanto, deslocar o transcendente da transcendência, separando as figuras que o transcendente assumiu nesse longo trajeto histórico de identificação com a transcendência.

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Biografia 

Leonel A. de Aguiar é doutor e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação da PUC-Rio, onde também exerce o cargo de coordenador do Curso de Jornalismo do Departamento de Comunicação Social.  Autor de diversos artigos em periódicos nacionais, publicou recentemente o capítulo “A Amizade Filosófica entre Deleuze e Foucault: Questões em Torno da Noção de Poder”. In: CRUZ, Jorge (org.). Gilles Deleuze: sentidos e expressões. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 206.
Notas

[1] Para uma investigação filosófica sobre a técnica e a tecnologia, consultar Amaral (1996b). Especificamente sobre o conceito de cultura comunicacional e as novas tecnologias de informação, ver Amaral (1996a). Agradeço ao professor Márcio Tavares d’Amaral a gentileza das orientações teóricas e indicações bibliográficas.
 
[2] Moderno: a comunicação de massa é uma produção da Modernidade. Contemporâneo: a cultura comunicacional tecnológica cria condições de possibilidade de se tornar macro pela “disparação que os artefatos informacionais fizeram no sentido da mediação generalizada, da simulação, do simulacro e da sedução” (Amaral, 1996a: 25). Paradoxo moderno-contemporâneo: produzindo a proliferação das simulações – possível quando a verdade se retrai e cede lugar a imaginação do mais verossímil –, a cultura comunicacional conserva a verdade, pois a informação não é o falso.

[3] Aqui, estamos entendendo a noção de “fim da História” como a perda da dimensão prodigiosa do acontecimento histórico moderno, cuja “transcendência igualava a de Deus”. Assim, a História reduziu-se ao campo da Contemporaneidade, onde os acontecimentos restringem-se ao seu sentido antecipado, sua programação e sua difusão. A “greve dos acontecimentos”, para Baudrillard (1995: 37-38), é o lugar do “fim da História, o fim da razão histórica”, já que a perda da “glória do acontecimento” é “essa recusa de significar seja o que for ou essa capacidade de significar não importa o quê”. Especificamente sobre a noção de “fim do social”, consultar Baudrillard (1985).

[4] Tal como, por exemplo, na seguinte tradução criticada por Heidegger, por estar totalmente equivocada: “o modo próprio de ser é, para o homem, o demônio”. Sobre esta crítica, confrontar: Heidegger (1979: 170). Como exemplo de duas outras traduções bem diferentes da compreensão filosófica heideggeriana, temos: “o ético no homem é o demônio” e “o caráter é o destino (daímon) de cada homem”. Para essas citações, ver, respectivamente: Souza (1978: 90) e Bornheim (1985: 43).


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