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Devorando o Outro. Canibalismo, Tradução e a Construção da
Identidade Cultural
por Rainer Guldin
(Università della Svizzera Italiana
– guldinr@lu.unisi.ch)
“Uma verdadeira polêmica ocupa um livro tão amorosamente
como um canibal prepara sua refeição”
Walter Benjamim
1. O canibalismo como uma metáfora cultural
“Eu estava em uma escola de matemática, onde o
mestre ensinava seus alunos com um método pouco imaginável para nós na Europa.
A proposição e a demonstração eram escritas numa massa fina, com tinta composta
de tintura cefálica. Isso, o aluno deveria engolir de estômago vazio [...].
Conforme a massa era digerida, a tinta seguiria ao cérebro, carregando a proposição
consigo. Mas o sucesso, até aqui, não foi obtido, em parte por causa de algum
erro no quantum da composição, e em parte por causa do capricho dos jovens,
para quem essa massa era tão nauseante, que eles geralmente disfarçavam e a
expeliam antes que ela pudesse operar seu efeito [...].”
Nesta passagem de “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, que descreve
uma de uma série de rituais científicos particularmente bizarros numa próspera
colônia distante na ilha voadora de Laputa, que casualmente significa ‘puta’ em
espanhol, o que testemunhamos é uma paródia imprópria do sacramento cristão da
comunhão – e das estruturas de poder do mundo acadêmico em geral. O uso que Swift
faz dos detalhes é notável: a massa, como a Hóstia, não é mastigada, mas
engolida. Durante sua digestão, a proposição nela escrita, migra
miraculosamente para o cérebro, assim como a alma após a morte. Mas o ato planejado,
de uma transubstanciação intelectual, falha. A metáfora recusa-se a se tornar
carne, revelando ao mesmo tempo o componente oral fisicamente agressivo de
qualquer processo de aquisição de conhecimento. Mas há algo mais. O ato de
engolir a massa reporta-nos a outra forma de comportamento mais preocupante,
geralmente associado a tribos selvagens distantes: o canibalismo. Nesta curta
passagem, ciência e religião, canibalismo e comunhão, aprendizagem e ritual,
ler e comer, a Europa e um lugar colonial distante misturam-se, criando um
espaço intrincado, a partir do qual eu gostaria de desemaranhar o fio do meu
discurso.
O
tratamento irônico dado por Swift ao canibalismo textual
deve ser entendido dentro de um contexto cultural e histórico muito mais
amplo, que eu gostaria de discutir brevemente antes de me concentrar no tema
principal do meu artigo, o uso inovador da metáfora do canibalismo, como usado
pelos escritores brasileiros nos anos 1960 e 1970, associado ao seu impacto teórico
na visão da construção da identidade cultural através da tradução e
autotradução.
O uso
da metáfora do canibalismo toca numa série de tabus culturais bem enraizados no
mundo Ocidental, não apenas no ritual cristão da comunhão, como acabamos de
ver. A partir do século XVI, o canibalismo tem sido identificado como uma
expressão característica de inferioridade cultural e associado acima de tudo
com a área costeira do Brasil.
Dentro do discurso colonial, a perspectiva do canibalismo tem sido
ambivalente durante os séculos. A postura superior dos mais evoluídos
culturalmente tem sido sempre acompanhada por uma profunda e irritante
fascinação pelo fenômeno e usada por alguns escritores como uma expressão de diversidade
radical da qual se desenvolveria uma crítica interna da própria civilização
ocidental. O texto inicial desta tradição é sem dúvida o ensaio de Montaigne Of the Cannibals. Em 1925, a etnógrafa americana
Ruth Benedict publicou um ensaio sarcástico com o programático título The uses of Cannibalism escrito na
tradição de Modest Proposal de
Jonathan Swift. Ambos os textos usam o canibalismo com uma intenção de chocar,
da maneira como ele foi apresentado pela literatura avant-garde européia, por
exemplo, por Francis Picabia em sua revisão dadaísta Cannibale publicado em 1902.
Essa
dupla apropriação da imagem dentro do pensamento europeu foi contra-atacada
pelo ‘movimento antropófago’ – uma facção do modernismo brasileiro iniciada
pelo escritor Oswald de Andrade, quem publicou o ‘Manifesto Antropófago’ no
primeiro número de sua Revista de Antropofagia em maio de 1928. A reapropriação
irônica de Andrade usava o canibalismo como arma verbal, não apenas para
escandalizar e intimidar o público geral, mas também para substituir a imagem
do indígena passivo e submisso
pela imagem do canibal agressivo e rebelde. O objetivo de Andrade era o
de superar a subserviência cultural do país revertendo “a postura
historicamente imitadora da literatura brasileira e o fluxo unidirecional da
influência artística ao criar uma poesia de exportação [...]”.
Embora criticasse a simples imitação das soluções européias, ele não era
fundamentalmente oposto à modernização. Em sua visão, a solução deveria ser uma
síntese dialética do passado e do presente: tirar vantagem de todos os tipos de
influências, não importando de onde elas viessem, devorando-as e
re-elaborando-as criticamente nos termos das condições locais, tentando não ser
culturalmente suprimido e destruído durante o processo. Nesse período inicial
do uso da metáfora do canibalismo, o aspecto da tradução ainda não tinha um
papel.
2. O Canibalismo como metáfora da tradução
Desde 1920, a imagem polivalente
do canibalismo tem sido uma metáfora cultural importante, assim como um modo
exemplar de luta simbólica contra a dependência neocolonial dentro da cultura
brasileira. Várias reavaliações ocorreram nas décadas seguintes,
mas apenas com o grupo dos poetas Noigrandes, do qual Augusto e Haroldo de
Campos faziam parte, assim como nos escritos de Vilém Flusser, o aspecto da tradução
tornou-se central. Uma análise genealógica comparativa mostra, além disso, que
seu uso da metáfora canibalística representa a convergência de diferentes
linhas teóricas, todas com uma história própria.
O
trabalho dos irmãos Campos e de Flusser assimilou e digeriu esses elementos
díspares e a história a que eles pertencem, através de sua fusão em uma visão
criativa única e crítica originada numa conjuntura sócio-política específica da
cultura brasileira. Colocando em outros termos: a posição teórica dos irmãos
Campos e de Flusser sobre a tradução é a melhor ilustração do funcionamento de
sua metáfora-chave, o canibalismo.
Em seu
ensaio, The Translator: From Piety to
Cannibalism, publicado em 1977, Serge Gavronsky usa duas metáforas
auto-excludentes para explicar o papel do tradutor tristemente preso
entre o original e sua tradução. A análise de Gavronsky apóia-se fortemente na
psicanálise freudiana, em particular no Complexo de Édipo e na descrição da
cultura primitiva feita por Freud em Totem e Tabu, um texto que também
foi de importância central para o Manifesto Antropófago de Andrade.
Gavronsky parece ignorar a tradição brasileira e não explora a dimensão
cross-cultural da metáfora.
A
primeira atitude é dominada por um respeito profundo pelo original que possui
um status semi-sacro e é, portanto, venerado a distância. A outra atitude rejeita o papel passivo da primeira
e desenvolve uma postura auto-afirmativa, transformando a tradução em um ato
criativo. O uso do termo canibalismo, diz Gavronsky, “enfatiza o
desaparecimento do menor traço” do original, criando um “perfeito”, ou seja, um
texto auto-suficiente. “O desaparecimento simbólico e a re-emergência do totem
original sob outra forma é uma analogia estrutural que ilumina o que eu
acredito que ocorra no caso do tradutor agressivo que se apodera do ‘original’,
que saboreia o texto, ou seja, que verdadeiramente se alimenta das palavras,
que as ingurgita e então as enuncia em sua própria língua, tendo, portanto se
livrado explicitamente do criador ‘original’”.
Através da tradução canibalística, o novo texto torna-se primário, isto
é, um novo texto original em seu próprio direito, e o tradutor torna-se um
criador próprio, negando, no ato criativo, qualquer dívida que ele pudesse ter
com o primeiro ato da criação. Como será demonstrado a seguir, a absorção total
e a negação do original pela tradução canibalística são apenas meios muito
específicos de se lidar com a metáfora.
3. Devorando e mastigando
Num
ensaio inicial sobre a tradução como forma de criação e de crítica, H. de
Campos distingue três formas diferentes de informação. Enquanto a informação
documentária e semântica podem ser facilmente traduzidas em outros códigos e
diferentes linguagens,
a informação estética contraria este processo por
causa de sua fragilidade, ou
seja, por causa da impossibilidade de separar forma e conteúdo,
inextricavelmente interligadas uma com a outra. A poesia apenas pode
ser
codificada do modo específico em que foi transmitida pelo
próprio autor, em
outras palavras: a codificação estética é
sempre idêntica à sua codificação
original. É por causa desta intraduzibilidade fundamental que a
informação
estética pode apenas ser recriada através da
transformação de corpos poéticos
isomórficos em linguagens diferentes. A tradução
de um texto poético é sempre
recriação ou criação paralela. Embora este
texto – escrito em 1962 – ainda
esteja impregnado pela concepção essencialista da
primazia absoluta do original,
sua própria intraduzibilidade já é considerada
como o ponto inicial para uma
reavaliação radical do ato da tradução em
si mesma, vista não tanto como um
processo de reprodução, mas como uma forma autônoma
de criação artística.
A
metáfora da alimentação e nutrição tem um papel bastante periférico neste texto
inicial. Além disso, H. de Campos baseia-se principalmente nos escritos de Ezra
Pound e de T. S. Eliot, sem mencionar Oswald de Andrade. A literatura inglesa,
segundo Pound, tem vivido e sido nutrida sempre pela tradução. A tradução
crítica tem um significado duplo: antever o ato criativo, assim como definir a
forma total e expurgar repetições desnecessárias.
T. S. Eliot, por outro lado, assinala a importância da renovação através da
tradução e a necessidade de apropriar-se do trabalho de grandes autores através
de digestão e assimilação sistemáticas.
A crítica através da tradução é vista aqui como o próprio alimento a partir do
qual o impulso criativo prospera.
Em The rule of anthropophagy: Europe under the
sign of devoration, escrito em 1981, a
metáfora do canibalismo e de sua origem
brasileira moveram-se para o centro do palco. O devorar e o mastigar
tornaram-se a lei universal de uma rede global de rápida
conexão. Mesmo que a
tradução em si mesma não seja mencionada
diretamente, o texto deve ser lido
como uma descrição das múltiplas e complexas
formas de interação entre as
culturas. A metáfora do canibalismo não só havia
absorvido uma vasta gama de
influências estrangeiras, incluindo a
‘transmutação’ de Jakobson e a
‘desconstrução’ de Derrida, mas também
havia, com sucesso, mastigado e digerido
todo o passado brasileiro, sul-americano e europeu, redescoberto
através dos
olhos do canibal da tradução, o mau selvagem
‘devorador de brancos’. Esta concepção
envolve “transculturação, ou melhor,
‘transvalorização’: uma visão
crítica da
História [...] capaz de expropriação,
des-hierarquização, desconstrução
[…]
Todas as sugestões, após serem despedaçadas e
misturadas, são preparadas para
uma nova remastigação, uma química complicada na
qual não é mais possível
distinguir o organismo assimilador do material assimilado.”
O canibalismo universal é uma forma de sincretismo e ecleticismo no qual os conceitos
de plágio e originalidade perdem seu sentido. De Campos fala de um “espírito híbrido
irresponsável, incapaz de ser uma coisa ou outra”. A divisão em primeiro e
terceiro mundos, países industrializados e subdesenvolvidos, baseados numa
seqüência linear progressiva de tempo, colapsa. Se Machado de Assis regurgita
suas experiências de leitura enriquecidas pela suas próprias habilidades como
escritor, outros canibais literários latino-americanos parecem antecipar
eventos culturais que aconteceriam muito mais tarde na Europa: “Sor Juana, no México,
é outro exemplo. […] seu Barroco diferencial […], num único gesto, antecipa o
Romanticismo alemão e o mundo de sonhos Surrealista. […].”
H.
de
Campos chama este complexo sistema de correspondências entre
culturas e eras de
uma ‘constelação’, que, com sucesso, abole as
conseqüências da história
colonial ao criar uma rede cultural alternativa. A poesia concreta do
grupo
Noigandres é uma outra constelação dentro deste
universo igualitário de
canibalismos múltiplos, recíprocos: um universo sem uma
origem verdadeira
dominado pela regra da desconstrução e
recombinação. Representa um “momento de
sincronia absoluta. Fala apenas da diferença em um código
universal. […]
re-combinando a herança greco-latina, Dante, Camões,
Milton, Goethe e Byron
[…], como Oswald de Andrade abrasileirando o Futurismo Italiano
e o Cubismo
Francês. Metalinguisticamente, ela repensa seu próprio
código, sua própria
função poética”. A poesia concreta é
o “espaço da nova síntese do código
universal. Mais do que uma herança de poetas, este é o
caso de se assumir,
criticar e mastigar uma poética”.
O funcionamento de um canibalismo universal ligando todas as culturas abole as
diferenças entre o centro e a periferia, através de uma “solidariedade quase
subliminal”, uma constelação existente sob a “linearidade da história
convencional”. A poesia concreta é a versão brasileira de uma nova poética, ao
mesmo tempo nacional e universal, “um planetário de ‘signos em rotação’”
criados por um grupo de escritores de uma “literatura supostamente periférica”
que “de repente, se apropriou do código como um todo”, reclamando-o “como seu
patrimônio”.
O
canibalismo cultural brasileiro não é apenas uma resposta à experiência do
mundo colonial e pós-colonial, mas um modelo que, de acordo com H. de Campos, é
capaz de explicar todos os tipos de recombinações, reescritos, traduções e processos
de reciclagem culturais. Desta forma, o canibal marginalizado transforma-se no
reciclador universal de uma “civilização planetária politópica e polifônica”.
Por algum tempo, as mandíbulas devoradoras dos novos bárbaros estiveram
“corroendo e ‘arruinando’ uma herança cultural que está mais global, em relação
às suas funções de ataque ex-centralizadores e desconstrutores com o ímpeto marginal
da antitradição carnavalesca dessacralizadora e profanadora, evocada por
Bakhtin […] o poli-culturalismo combinatório e ludibrioso, a transmutação
paródica do significado e dos valores, a hibridização aberta, poliglota, são os
dispositivos responsáveis pela constante alimentação e retroalimentação deste
Barroco […] trans-enciclopédia carnavalizada dos novos bárbaros, onde tudo pode
coexistir com tudo. Eles são mecanismos que esmagam o material da tradição com
os dentes de um moinho de açúcar tropical, transformando caules e coberturas protetoras
em cascas e caldo de cana.”
4. Digerindo e absorvendo
Nos
anos 70 Vilém Flusser – o outro autor que eu gostaria de discutir agora –
escreveu um livro sobre o Brasil, apresentando-o como uma fenomenologia do
subdesenvolvimento. No capítulo dedicado ao projeto de uma futura linguagem
brasileira, sugerindo por analogia a forma de uma nova cultura brasileira, ele
faz uso da metáfora das múltiplas digestões sucessivas, uma imagem que vamos
encontrar novamente, quando ele discutir sua própria prática de escrita. A
língua brasileira é feita a partir de uma série de influências africanas,
indígenas, asiáticas e européias que foram digeridas no curso de sua história,
e forma três idiomas específicos que interagem entre si: a linguagem do
interior arcaico, assim como as variantes proletárias e burguesas. Cada grupo,
por sua vez, alimenta-se da linguagem, passando-a ao próximo grupo, após a ter
mastigado e digerido. Deste modo, através de uma alimentação e retroalimentação
coletivas constantes, ecoando o ponto de vista de H. de Campos, a linguagem brasileira
e com ela os brasileiros do futuro vão aos poucos se ramificando e diversificando-se,
assimilando e elaborando as culturas das outras classes sociais.
Com
Vilém Flusser, e esta é sua contribuição pessoal à discussão, antropofagia
torna-se autofagia, canibalismo autocanibalismo. Ao longo dos anos ele
desenvolveu uma estratégia de escrita baseada em múltiplas autotraduções
sucessivas usando quatro idiomas diferentes no processo: português, alemão,
inglês e francês. Cada novo texto tem, segundo sua própria descrição, o texto
anterior em seu próprio interior. Cada novo texto que se alimenta de todos os
anteriores é, além disso, somente uma solução provisória, visto que sempre pode
ser retraduzido para um dos idiomas que já o compõem. Flusser considera esta
conexão dialógica canibalista reversível entre as quatro línguas diferentes e
os textos complexos que resultam delas uma metáfora da troca cross-cultural e
de uma identidade cultural de muitas camadas possíveis.
Enquanto
H. de Campos foca principalmente o próprio ato de absorção do canibalismo, a
desconstrução do estrangeiro pela mastigação e trago, assim como o surgimento
da conexão a partir deste intercâmbio canibalista, Flusser se concentra no ato
da digestão e suas possíveis consequências. Na visão dele a incorporação de elementos
novos conduz somente em parte para completar a absorção já que alguns elementos
estrangeiros são simplesmente irredutíveis à lógica de assimilação do corpo.
Eles permanecem um elemento estranho, funcionando como uma espécie de
catalizador que desencadeia novos desenvolvimentos desestabilizadores sem a
absorção do corpo. Para a intraduzibilidade de Flusser, isso é
indigestabilidade, é o aspecto mais fundamental de toda a interação
cross-cultural.
Um exemplo particularmente interessante da metáfora
da alimentação pode ser encontrada em Flusser A dúvida, onde descreve a entrada de
novos elementos com uma ameba emitindo um pseudópode que engole o elemento
estranho com a intenção de assimilá-lo: nenhuma violência perturbadora
infiltrada aqui, como com H. de Campos, mas um processo quase-estático bastante
lento de absorção e osmose contínuas. Alguns dos elementos estrangeiros recusam
serem integrados no corpo da ameba e permanecem indigeríveis, um constante
desafio para a unidade do sistema que tenta em vão quebrá-los a fim de
assimilá-los, liberando novas forças criativas no processo. Esta é a
impossibilidade de uma tradução final satisfatória que mantém o processo em
funcionamento.
5. Tradução interna: criando uma
meta-linguagem
Tanto
os irmãos Campos como Flusser concebem a tradução de textos como o campo de um
processo interno contínuo de tradução que não pára uma vez depois de ter
começado. A fim de descrever o intricado complexo do esforço do tradutor em
sintetizar eles utilizam a metáfora do palimpsesto. A contaminação cultural que
ocorre na tradução canibalista pode conduzir à total absorção, fusão,
sobreposição ou co-presença de elementos díspares no mesmo texto. Na maior
parte dos casos, entretanto, o principal objetivo reside na etapa de diferenciação
pela introdução de elementos estrangeiros no texto traduzido sem invalidar as
disparidades. Isto assegura a verdade para ambos escritores mesmo se em alguns
de seus textos eles parecem vacilar entre absorção completa em uma síntese
unificante e uma variante híbrida fragmentada.
Em um
ensaio não publicado no movimento da escrita escrito nos anos 70 Flusser chama
o resultado final de sua prática de autotradução ‘um palimpsesto coletivo’.
Para H. de Campos, estes textos, ainda que apenas monolinguais, são uma
tentativa de criar uma meta-linguagem em camadas. Embora os
variados traços multilinguais de todas as versões anteriores tivessem sido
apagados eles estão presentes na versão final como citações sem marcas de
citação.
Em Deus
e o Diabo no Fausto de Goethe que encena a presença de um intertexto em seu
título
H. de Campos descreve o que denomina plagiotropia – plágio pela tradução
– em termos de um palimpsesto alcançado pela adição de novas camadas no alto de
um texto já multiestratificado. Segundo Flusser, as únicas camadas desse
palimpsesto não têm que ser entendidas como extratos fixos, acumulados com o
passar do tempo, mas como planos constantemente em deslocamento e interação.
Augusto de Campos chamou esta co-presença irreduzível dos elementos das
diferentes origens lingüísticas ou culturais intradução, uma combinação
de introdução e tradução, provavelmente pretendendo um significado duplo:
tradução interna, isto é, uma forma interna de tradução devido à
interpenetração dos elementos diferentes que constituem um texto e a
impossibilidade final deste processo chegar a parar. Com isto os simples
dualismos do estrangeiro e do familiar, do exterior e do interior, do original
e da tradução, da cultura central e da cultura periférica, da pátria e da colônia
são definitivamente superados e inscritos dentro do próprio texto em forma de
um dinâmico princípio criativo que subverte qualquer idéia de um sentido final.
Em suas traduções Augusto e H. de Campos tem feito uso freqüente do que pode
ser chamado de fontes duplas, introduzindo uma entrada autóctone em suas
importações estrangeiras, canibalizando o estrangeiro bem como as fontes
locais, "nutrição vinda de dois reservatórios, o texto fonte e a
literatura alvo."
Em algumas traduções do verso europeu eles têm
incorporado passagens da poesia brasileira ou das canções populares
nativas. Os dois códigos lingüísticos não estão lado a lado, mas devem
interagir, subvertendo a autoridade do original e comemorando a autonomia do
texto traduzido.
O método de Flusser de
autotradução sistemática como uma maneira de criar textos novos que se inventam
no processo sempre volta a si mesmo, mastigando o que já havia sido mastigado,
negando assim qualquer desenvolvimento linear. Como Flusser comenta em uma
carta a seu amigo Alex Bloch: "[... ] como você impõe impiedosamente a
você mesmo: lambendo seu próprio vômito".
A autotradução final conduz o texto, devidamente alterado e enriquecido através
dos estágios sucessivos de re-tradução, de volta ao começo. Se o primeiro texto
foi escrito, por exemplo, em alemão que é a última língua a ser usada, após o
francês, inglês e português fosse novamente alemão, a fim de testar a
sonoridade do produto final, aqui não significa tanto sua semelhança ao
original, mas sua riqueza na percepção e estilo. A qualidade de uma tradução
não é calibrada por sua fidelidade ao original, mas por sua densidade e
complexidade. Como no canibalismo global dos irmãos Campos, o processo de
autotradução nega linearidade ao curvar-se em si mesmo como o Uroboros faz,
alimentando-se de sua própria cauda. A estrutura básica da autotradução é uma
complexidade auto-reflexiva. Mas há algo mais.
A
metáfora canibalista da tradução questiona a
simples dualidade do ‘original’ e
‘tradução’ e a hierarquia relacionada da
‘pátria’ e ‘colônia’ introduzindo
a
idéia de uma possível reversibilidade. H. de Campos,
referindo-se a Bakhtin,
indica, o canibalismo é um dispositivo fundamentalmente
carnavalesco, virando
jocosamente as relações de poder de ponta cabeça.
"No exemplo da
retradução", escreve Flusser, "a conexão original
dos dois códigos é
invertida: o código-objeto [a língua fonte] torna-se
agora um metacódigo [a
língua alvo]. Em outras palavras: depois que o código
francês engoliu parte
[... ] do código inglês, por sua vez ele é engolido
pelo código inglês, [... ]
portanto falar com o inglês em seu interior."
No curso do processo de tradução, então, um texto engole e digere um outro
texto que está em troca alimentado-se de um texto ingerido anteriormente. A
versão final terminará tendo a estrutura de uma boneca russa, cada boneca
contém a anterior que por sua vez conteria todas as outras, com a diferença de
que todas elas seriam diferentes. No caso da retradução a estrutura ficaria
ainda mais complicada porque uma versão particular poderia conter uma versão mais
recente de si mesma que contém ainda uma outra versão dentro de si. A conexão
hierárquica simples unilateral e linear do original e da tradução desaparece
atrás de uma modalidade circular reversível complexa de interação. Na
autotradução cada texto novo é um original por direito próprio.
Em um
capítulo do seu trabalho original The
Poetics of Imperialism dedicado ao canibal eloqüente Eric Cheyfitz cita uma
passagem do ensaio de Montaigne sobre canibalismo que soa como um comentário
irônico sobre o ponto discutido aqui. O canibal prisioneiro desdenha de seus captores:
"Deixe-os corajosamente vir junto [... ] alimentar-se dele; para que com
ele eles devem alimentar seus pais uma vez, e avôs, que antigamente serviram seu
corpo para alimento e nutrição. Estes músculos, esta carne, e estas veias são suas
próprias[... ]. Prova-os bem, porque neles você deve encontrar o gosto de sua
própria carne." Como tradutores canibais nós não somos mais
que nós em uma rede global de criatividade que mede muitos gerações e vastos espaços
geográficos alimentando constantemente uns aos outros e nós mesmos.
6.
Mutualidade e hibridismo: a construção da identidade cultural como uma forma de
(autotradução) canibalista
Qual é
a relevância da visão da tradução de Flusser e dos irmãos Campos para o debate
teórico atual? Primeiramente suas descrições de interações cross-cultural
poderiam ser comparadas ao conceito de Wolfgang Iser de ‘mutualidade’, focado
na autocultura que emerge dos processos translacionais envolvidos.
Concentrando-se no lado relacional da identidade cultural, em vez do próprio
resultado, ele pode, além disso, evitar ser iludido pelas formas de argumentação.
A proximidade
de alguns dos aspectos salientes do conceito de mutualidade de Iser à noção de
tradução autocanibalista de Flusser está de fato lançada. A identidade das
culturas, mas também as identidades culturais para esse propósito, segundo Iser,
são nascidas e constituídas fora dos processos contínuos de mútua apropriação,
assimilação, interpenetração e justaposição. Esta forma de troca cross-cultural
auto-reguladora estruturada ciberneticamente tem se liberado “de quaisquer
estruturas pré-dadas de referência a fim de gerar seu próprio controle por
deslocamento constante de modalidades de referência [... ]." Isto é
baseado em laços recursivos, isto é, nos laços de feedback positivos e negativos que conduzem a várias formas de
produção cultural. Elementos inexplicáveis tendem a energizar a movimentação
operacional dos processos de transação. "O mecanismo de laços recursivos é
uma modalidade operacional apropriada para traduzir culturas em uma
outra." Na visão de Iser a conexão entre a cultura fonte e a cultura alvo
é fundamentalmente um fluxo reversível em dois sentidos e, portanto, não
hierárquico. Não há nenhuma visão privilegiada da qual se acesse todas as
outras posições, já que cada posição pode ser alimentada através dos laços
recursivos de mutualidade mencionados. Em segundo lugar, a tradução canibal é
fundamentalmente descentralizada e híbrida,
navegação infinita entre diferentes culturas, formando um nó dialógico em uma
rede global de habilidades de tradução. Ele não nega completamente o outro, mas o
devora a fim de transformá-lo e absorvê-lo. Ele é "fiel à diferença"
como Else Vieira colocou. No caso de Flusser esta fidelidade à diferença conduz
a uma fidelidade ao outro em si próprio, transpondo a variação cultural do
original e da tradução dentro do processo da própria escrita. O autotradutor
canibalista pode ser fiel a seu princípio de trabalho somente por tornar-se
constantemente infiel a todos os outros. A divisão fundamental entre culturas –
entre um mundo exterior a ser ingerido e digerido e uma dimensão absorvente
interna – está inscrita dentro da atividade da escrita do próprio autotradutor,
multiplicando seus muitos eus como uma sala de espelhos. Para Vilém Flusser, A.
e H. de Campos a prática translacional, e o próprio tradutor, são um campo de
tensão onde um processo de negociação sem fim é decretado, criando e recriando
uma cultura pessoal híbrida e intersticial.
7. Devorando a devoração
Neste
artigo eu quis mostrar como o uso do canibalismo como uma metáfora da interação
e da tradução cross-cultural, como tem sido utilizado pelos irmãos Campos e por
Vilém Flusser dos anos 60 em diante, ocorreu por estágios, integrando
diferentes tradições culturais e perspectivas teóricas ao longo do tempo.
Embora os irmãos Campos e Vilém Flusser compartilhassem muitas crenças e
convicções sobre o uso da tradução no encontro cross-cultural – por exemplo,
suas tentativas sistemáticas em dissolver todos os tipos de narrativas
teleológicas lineares – eles têm explorado lados diferentes do fenômeno:
desconstrutor amorosamente agressivo, aspecto desmembrador e o lado assimilador
digestivo lento – boca e dentes contra estômago e intestinos – a jocosa
subversão carnavalesca da conexão entre a colônia e a pátria, de um lado, e a
produção de laços translacionais realimentados que se alimentam criteriosamente
um do outro, do outro lado.
A
originalidade de Flusser encontra-se no fato de que através da autotradução
aplicou basicamente o princípio canibalista ao ato canibalista de apropriação
de si mesmo. O perigo inerente na metáfora canibalista reside no fato de que
pode finalmente apenas inverter a estrutura do poder colonial pela troca de
papéis, confirmando a simples dicotomia de um interno familiar e de uma
realidade exterior estrangeira. A apropriação colonial tende a alimentar-se do
estrangeiro dissolvendo-o no contexto familiar e anulando todos os traços de
diferença. Enquanto o canibalismo se apropria da apropriação colonial, isto
deveria ir além da simples dualidade traduzindo posições descentralizadas em
uma outra, invertendo oposições bem definidas, cultivando complexidade e
mutualidade, dobrando-se constantemente e criando estruturas com finais
abertos, ou, colocando de uma outra maneira, devorando a fronteira entre o
estrangeiro e o familiar, devorando o devorador e o próprio ato de devorar.
(Tradução: Fabiana Grieco Cabral de Mello e Maristela Schaufelberger)
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Notas
J. Randal: ‘Tupy or not Tupy:
Cannibalism and Nationalism in Contemporary Brazilian Literature and Culture’,
in: Modern Latin American Fiction: A Survey, ed. by J. King, London
/ Boston 1987,
p. 44.
6 For instance in the films of Joaquim Pedro Andrade, the
novels of Darcy Ribeiro and Márcio Souza, or the work of Benedito Nunes.
S. Gavronsky, The Translator:
from Piety to Cannibalism, in: Sub-Stance, N° 16, 1977, p. 59
Campos
follows here mainly the categories established by Max Bense. Documentary information
simply (?) registers reality, whereas semantic information always comes up with
a new element. The aesthetic information on the other hand is characterized by
a moment of surprise and unprdecitability.
H.
De Campos quotes a passage from Hugh Kenner’s introduction to Pound’s poetry.
Kenner uses a phallic metaphor when he speaks of the necessity to penetrate the
mind of the translated author in order to reach the things his mind has been
feeding on.
H. de Campos, De la traduction comme création et
comme critique’, in: Change: Transformer, n° 14 Février 1973, p. 74f. Only the second part of
the essay describes the work of Manuel Odorico Mendes (1799-1864) the first
writer in Brazil
to propose a theory of translation akin to the one discussed by Haroldo de
Campos. When the Noigandres group was founded in 1952 they made it their aim to
reformulate the contemporary Brazilian poetics by combining their theoretical
reflection with a continuous translational activity, using Pound’s conception
of translation as their starting point.
H. de Campos, The Rule of
Anthropophagy: Europe under the Sign of
Devoration, in: Latin American Literary Review, 1981, p. 42f.
Bibliophagus
and CD on communication society: here non digestion takes place, accelerating
the process of intake and discarding.
It
refers to Glauber Rocha’s film Deus e o
Diabo na Terra do Sol.
Else Ribeiro Pires Vieira, A Postmodern Translational Aesthetics in
Brazil, in: Translation Studies: An Interdiscipline, Snell-Hornby, Mary,
Pochhacker, Franz & Kaindl, Klaus (eds.),
Amsterdam 1994,
p. 72
“[…] wie Sie es einmal mitleidlos sagten: das
eigene Kotzen lecken” (Flusser, Vilém: Briefe an Alex Bloch, Göttingen 2000, p.
199).
˝Bei
der Rückübersetzung dreht sich das ursprüngliche Verhältnis der beiden Codes
um; der Objektcode wird zum Metacode. Mit anderen Worten: Nachdem der
französische Code einen Teil […] des englischen verschluckt hat, wird er
seinerseits vom englischen verschluckt, […] sozusagen mit dem englischen im
Bauch“ (V. Flusser, Kommunikologie,
Mannheim 1996, p. 343). In Flusser’s view the target language is a
meta-language dictating the way the source text is going to be treated in the
course of translation. The original plays therefore always the secodn part.
E. Cheyfitz, The Poetics of
Imperialims. Translation and Colonization from The Tempest to Tarzan, New York / Oxford
1991, p. 148
Compare
Carlos Rincón, Antropofagia, Reciclaje, Hibridación, Traducción o: como apropriarse
la apropiación, in: Anthropophagy Today?, ed. by J. Cezar de Castro Rocha and
J. Ruffinelli, Stanford 1999, p. 348.
This
implies a nomadic unstable cultural identity very much akin to Homi Bhabha’s
interstitial self.
E. Vieira, A
Postmodern Translational Aesthetics p. 65
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