Editorial
Sobre a ponte inexistente
Toda comunicação é uma tentativa
de re-união com o mundo, de estabelecer um vínculo que possa ser ponte entre a
consciência e o sentimento primordial de fazer parte, de pertencer.
Toda comunicação verdadeira,
neste sentido, é uma ponte que se estende sobre o nada, que só aparece na beira
do abismo, para quem se atreve a dar o passo nesse nada que se chama "ir
em direção ao outro".
Muitos não vêem relação direta
entre comunicação e comunhão, mas para mim ela parece inegável. Mesmo que haja
dissenso, que haja diferença, que haja tensão, não é nada disso que nos
mobiliza a buscar uma comunicação possível. É o comum que nos aproxima, que faz
com que mesmo em meio a toda a dificuldade, como diz Chico Buarque, eu
"ajeite o meu caminho para encostar no seu".
A comunhão que testemunhamos nos
fenômenos religiosos verdadeiros (e não naqueles construídos pelo marketing
religioso e pelas emoções espetaculares) não é uma comunhão que pressupõe o
apagamento das identidades, mas uma comunhão que permite que essas identidades
se misturem por alguns momentos para serem depois retomadas, enriquecidas por esse encontro seminal.
O projeto científico da
modernidade nos supôs muito civilizados, muito conscientes, muito racionais. A
pós-modernidade é por isso um cair de máscaras do maciço processo de
racionalização ao qual fomos submetidos nos últimos dois séculos, e nela se
revelam traços fundamentais da natureza humana, traços inconvenientes ao
projeto civilizatório do Ocidente cristão (e capitalista), tais como o poder do
imaginário, dos mitos, das religiões, das crenças, das convicções partilhadas.
Essa racionalização moderna, que
pôs a razão humana no topo da realidade, recalcou e negou muito das nossas raízes culturais, e
com isso gerou de fato apenas o fortalecimento da ação destruidora de alguns
seres da noosfera[i].
Após a crise dos grandes símbolos
diretores dos séculos XIX e XX, tais como o Estado, a Ciência, a Família, a
sombra dos imaginários não mais imaginados pelo homem-funcionário (para
emprestarmos uma imagem de Vilém Flusser) paira sobre a contemporaneidade,
contradizendo inclusive a última aposta economicamente motivada de que a
tecnologia resolveria nossos problemas.
Jean Baudrillard acertadamente
nos disse que a vida contemporânea se reduziu a um projeto experimental
(Telemorfose), que tudo se consome na própria idéia do experimentalismo e da
explicitude dessa experiência. No entanto, por outro lado, nem a técnica, nem a
ciência, nem esse experimentalismo vazio da contemporaneidade foram capazes de
apagar definitivamente da alma humana uma certa propensão aos estados alterados
de consciência, às práticas de comunhão, à busca de formas de transcendência
(ainda que equivocadas).
Paira no ar uma falta. E quem
estuda sobre pensamento mítico, mitologia, história das religiões, religião
comparada, percebe que essa falta é antiga, é fundante. Essa falta é o abismo
sobre o qual também a ponte da comunicação se constrói.
Mas no lugar de pontes, pode-se
também colocar cordas-bambas. Prova disso é a arrebatadora adesão a todos os
eventos sociais, e midiáticos, que buscam os estados alterados da consciência,
que oferecem momentos de participação mística, sejam as raves ou os grandes
cultos-shows das religiões neopentecostais. Ao vivo ou pela mídia eletrônica, a
enorme adesão da audiência dos produtos religiosos deixa claro que aqui
tratamos de uma falta.
Essa falta, esse abismo que não
se atravessa em cordas-bambas, se por um lado denota uma fragilidade que
perigosamente abre espaço para práticas de endoutrinamento, por outro lado
revela um traço importante do humano, sua condição de re-união.
Ironicamente, é onde às vezes a
pretensão científica espera encontrar o pior, que de fato encontramos nichos
noológicos de resistência, como alguns dos textos desse número apresentam,
quadros que nos fazem antever a resistência do que, no humano, suspira, sonha,
insiste em encontrar algum sentido. O universo da noosfera é, para nosso horror,
quando o vemos reeditando o pior da barbárie, muito mais autônomo do que
gostaríamos de admitir, mas também é, quando presenciamos a sobrevivência de
símbolos e rituais seminais, re-organizadores no melhor sentido, muito mais
forte e auto-regenerador do que supomos.
Se por um lado essa ponte que
buscamos não se constrói apenas com a sombra do primitivo negado, que hoje
reaparece sob todas as formas do grotesco e do elogio à banalidade, por outro
lado também não se constrói com os discursos racionalizantes e puritanos de uma
ciência que em seu pensamento compartimentalizado (por demandas burocráticas)
nega os hibridismos que a própria realidade nos apresenta.
Este número dez da Revista Ghrebh
apresenta falas de pesquisadores corajosos que ousam falar à margem desses
discursos que se pretendem "mais reais do que o rei".
[i]
Utilizamos aqui um conceito que foi apresentado inicialmente por Teillard de
Chardin, mas gosto especialmente de como Edgar Morin desenvolveu esse conceito
(Método 4), aplicando-o também aos construtos da ciência e das teorias em
geral, e mostrando como elas não são tão diferentes assim do pensamento
religioso, como gostaríamos de supor.
Malena Segura Contrera
Junho de 2007