O
Mito e as Narrativas Contemporâneas
por
Pedro Carvalho
Murad
(murad@ig.com.br)
Este estudo nasce
de uma questão central: no tocante à
produção ficcional contemporânea,
poderíamos extrair um modo constante de
construção de narrativa? Certa
recorrência que subsiste desde as primeiras formas de
fabulação encontrada nos mitos arcaicos, que
perpassam a totalidade da produção
simbólica atual. Ou seja: pode-se perceber alguma forma de
sobrevivência da representação
mítica nas narrativas midiáticas da
contemporaneidade?
O modo de
fabulação operacionalizado pelo mito nas
sociedades arcaicas revela-se em plena atividade mesmo nos dias atuais,
tanto na mecânica interna da narrativa, quanto no modo pelo
qual se insere nas mediações
simbólicas. Logo, somos levados a buscar, no mito, uma chave
para que formulemos uma compreensão válida acerca
da produção ficcional na contemporaneidade.
A
noção de que certas estruturas míticas
se sobrepõem a todas as formas de narrativa já
é bastante difundida, sendo primeiramente levantada por
Joseph Campbell. Em contato com a obra de Carl G. Jung,
através da qual tenta-se traçar uma
história da mente, pelo estudo dos símbolos.
Segundo o mesmo estudo, a psique conservaria rastros de etapas
anteriores do desenvolvimento humano, no que Jung iria nomear por
Inconsciente Coletivo, uma herança psicológica
comum a toda humanidade, de onde todos os símbolos,
arquétipos e mitos derivam. Deste modo, percebe-se a
recorrência de determinadas imagens, conflitos e
situações presentificadas pelos mitos arcaicos,
na produção simbólica moderna. Os
mitos teriam um papel determinante na psicologia humana, tanto na
formação do indivíduo, quanto no modo
pelo qual um corpo social assume uma identidade coletiva.
Dentre os mitos, um
deles alcançou acentuada primazia, onipresente em toda
produção ficcional do globo, desde as primeiras
formas de fabulação. O Mito do Herói,
ou monomito, como definiria Campbell, surgiu nas mais diversas
culturas, e nas mais diversas épocas. Embora apresentem
diferenças entre um formato e outro, detém
semelhanças estruturais marcantes, seguindo certos
padrões universais, uma forma comum. O personagem assume
feições, características, formas
correspondentes a cada cultura, mas seu percurso, sua jornada, o
conjunto de movimentos numa trama são sempre os mesmos.
Trata-se do que o antropólogo viria a pensar como uma
jornada. O Herói vive sempre uma mesma jornada, constituindo
sempre um mesmo mito — o Mito do Herói. Se
lançarmos um olharpara toda a produção
ficcional, dramática ou não, perceberemos essa
constância. Ocorre sempre uma jornada, na qual o
Herói empreende uma aventura — física
ou psicológica ou ambas —, tão cara ao
espectador.
Desse modo, o mito do herói se configura dentro de uma
rotina básica: O herói vive num mundo comum e
estável. Num momento, recebe um chamado paratrilhar outro
mundo, hostil e estranho, muitas vezes anormal. Toda narrativa consiste
nessa jornada ao extraordinário, na qual o herói
terá que enfrentar desafios, num embate de vida e morte,
morrer e ressuscitar, retornando ao mundo especial, trazendo algo novo,
como que um prêmio. Esta dinâmica se faz notar em
toda e qualquer narrativa existente. Alguém (o
Herói) sempre quer alguma coisa e se aventura por
consegui-la, pelas sucessivas rupturas e deslocamentos. Hamlet
empreende uma viagem sem mesmo deixar a corte. Justamente esta viagem
em busca da verdade, das mudanças, descortinando o mundo
cotidiano das aparências, torna qualquer leitura ou
audiência cativante.
Essa
noção não passou desapercebida
à indústria cinematográfica
norte-americana. O modelo de monomito levantado por Campbell passou a
ser adotado por escritores, em fins do século XX, na
produção de roteiros para filmes, em Hollywood. O
impulso maior se deu, sobretudo, pelos estudos de Christopher Vogler,
um analista de histórias dos estúdios Walt
Disney, a partir da pesquisa de Campbell. A
percepção acerca do monomito revelou-se valiosa
tanto na feitura, por parte de roteiristas, quanto na
própria aferição, por parte dos
analistas e executivos da indústria do audiovisual
norte-americano. “O que fez Vogler? Muito simples. Ele
ajustou o monomito de Campbell à estrutura
dramática tradicional conforme é utilizado
peloscreenwriting norte-americano” (MACIEL, 2003, p. 66). Os
resultados da aplicação consciente do monomito se
faziam mais claros, pela notória receptividade do
público telespectador. O estudo iniciado por Carl G. Jung,
embora não seja uma unanimidade quanto sua
eficácia terapêutica ou mesmo pela teoria da
psicologia das profundezas que tenta imprimir, revelou-se
válido pelos apontamentos feitos a partir do Mito do
Herói e sua aplicabilidade dramatúrgica, visto
que “todas as narrativas, conscientemente ou não,
seguem os antigos padrões do mito e que todas as
histórias, das piadas mais grosseiras aos mais altos
vôos da literatura, podem ser entendidos em termos da jornada
do herói, o monomito” (VOGLER, 1997, p. 24).
Porém, a
insistência na percepção do mito, em
grande parte das narrativas existentes, obriga-nos a delimitar,
inicialmente, o que vem a ser mito, e como este se constituiu ao longo
da história ocidental, tendo por ponto de partida as
sociedades arcaicas. Tarefa não muito fácil, uma
vez que a ocorrência dos mitos se deu já na
formação das sociedades primeiras, posteriormente
constituindo um elemento primordial no processo
civilizatório.
Caminhando entre o
fictício e o real; oscilando entre essas duas categorias, o
mito teve uma valoração diferenciada, embora, no
seio das sociedades, desde as culturas arcaicas até as
sociedades contemporâneas, no íntimo, tenha
seguido uma mesma e constante dinâmica. As
atribuições são cambiantes, o papel
distinto em cada cultura, as prerrogativas culturalmente determinadas.
O mito é um relato, uma descrição
sempre fabulosa, do que se supõe ter acontecido num passado
remoto e quase sempre impreciso. Trata-se, sobretudo, de uma narrativa,
um modo, segundo Platão, de expressar verdades que escapam
ao raciocínio. Uma fundamentação do
mundo e das coisas do mundo, no qual se aponta uma origem. Esta origem
pode ser tanto de algo particular quanto do próprio cosmos.
Tem por agentes, divindades. Assim, o mito situa a divindade no Mundo.
Graças à ação divina,
tem-se o mundo e, através dela, todas as coisas que nele
existem. Desse modo, explica-se a existência dos
fenômenos naturais, dos seres vivos, das sociedades humanas.
Tudo é abarcado nessa fabulação. Os
povos antigos se valiam do mito como explicação
primeira do próprio cosmos.
Uma vez descrevendo
a criação de algo, o mito situa e demarca a
origem de uma cultura. Cada sociedade, assim, tem nele um modo de
assumir uma identidade e um modo de estar no mundo. Logo, a
existência de um povo acaba por ser legitimada por algo como
que uma missão, tantas vezes descrita nas narrativas
míticas. O mito, assim, funciona como um suposto social;
dá-se pela necessidade que um povo, uma cultura e mesmo uma
nação, tem para assumir uma consciência
cultural integrada.
Ora, esse processo
não ocorre apenas no que tange à sociedade, mas
à própria formação do
indivíduo. Uma vez que confere ao mundo uma origem e
dá um lugar à divindade, o mito acaba por mapear
o espaço e seus elementos, insere o homem num tempo e num
horizonte ansioso por realizações. Deste modo,
impõe uma ética nas
relações entre homem e divindade e,
conseqüentemente, entre homem e homem. Situa, demarca, o mito
insere o indivíduo num dado tempo e espaço. As
ações humanas, portanto, acabam por serem
contextualizadas num mundo inteligível e
acessível, onde os atos humanos são
alicerçados.
No entanto,
não existe no mito uma dimensão ética
determinada. Não é intrinsecamente moralizante,
apenas dá uma significação
plausível e necessária ao mundo. Localiza o homem
neste mundo, e nisto se basta. As ações de uma
sociedade, e mesmo de um homem, são posteriores e suas
implicações não são
concernentes ao mito. Isso ocorre por um aspecto básico: ao
contrário do que se poderia pensar, os mitos não
constituem narrativas cerradas, onde seus elementos quedam fixos. Seus
significados são móveis e uma narrativa
mitológica não é a mesma, a cada
momento em que é acionada. Ou seja: nenhum mito é
inteiramente fixo, sequer finalizado. Se confere ao mundo alguma
fixidez — circunstancial, vale salientar, não
significa que seja ele mesmo fixo. Isto revela seu caráter
dinâmico, nunca estático, através do
qual se viabiliza.
Logo, fica em
evidência uma característica marcante do mito,
pois supõe certa abertura semântica. Tem-se a
nítida noção da narrativa
mítica como uma estrutura fechada, proveniente de uma
experiência coesa e constante do sagrado . Uma
atribuição relegada unicamente à
experiência religiosa. Ora, esta noção
revela certo desconhecimento no que tange à
experiência mítica e à
própria experiência religiosa. Ambas germinam em
solo comum, se completam, sendo igualmente dinâmicas.
Analisemos,
então, essa abertura, essa variabilidade de sentidos toda
própria do mito. Como dissemos, não se trata de
algo fixo, sequer imutável. As narrativas mencionadas
não compreendem estruturas monolíticas, onde os
significados são inexoravelmente determinados. Ao
contrário, carecem de uma atualização
constante. Os mitos, assim como toda e qualquer
fabulação, não são de modo
algum completos. Toda narrativa carece finalizar-se, completar-se,
assumir uma integridade, ainda que momentânea. Revela-se,
então, um fosso semântico tão
conveniente à fabulação
mítica. Uma vez que esta se vale de
dramatizações acerca da origem do mundo e dos
seres, aparentemente “prontas”, têm-se a
impressão da ocorrência de elementos perenes, que
não são alterados. A própria
referência à divindade tornaria o discurso
axiomático e estável. Ora, neste caso, temos
clara certa contradição: se os sentidos
lançados na descrição
mítica fossem sempre os mesmos, homogêneos, como
explicar as transformações nas sociedades e,
conseqüentemente, no pensamento mítico das mesmas?
Uma vez que o mito fundamenta uma sociedade, como pensar em mobilidade
se pensamos em fundamentos tão fixos? As respostas a estas
questões encontram-se no foco, basicamente. O que acaba por
deter alguma relevância neste processo não
são os produtos da experiência mítica,
mas a própria produção. Se temos a
impressão de persistência de certas narrativas,
ela é falsa, pois esta constância é
ilusória. As narrativas mudam, suas
aplicações também, pois mesmo
“a existência de um modelo exemplar não
entrava o processo criador. O modelo mítico presta-se a
aplicações ilimitadas” ( ELIADE, 1972.
p. 125) .
Como dissemos, os
mitos fundamentam o mundo, mas isso não significa que
conferem ao homem um mundo por si só finalizado, pois o
homem “conquista infatigavelmente o mundo, organiza-o,
transforma a paisagem natural em meio cultural” ( ELIADE,
1972. p. 124). Neste caso, a experiência mítica
possibilita um ambiente simbólico onde uma
atuação humana torna-se viável. Faz-se
assim, pois, ao viabilizar uma compreensão acerca da origem
das coisas, torna possível o domínio e o manejo
delas. Logo, o mito revela um caráter instrumental.
Não dá ao homem um mundo acabado. Ao
contrário, permite ao próprio homem atualizar
este mesmo mundo. Esta atualização só
se faz possível justamente pela ordem perpetrada pelo mito,
onde um mundo caótico, sem
significação, disperso e confuso, dá
lugar a uma realidade cognoscível e plenamente
articulável. O mito, portanto, situa o homem
ônticamente no mundo.
Uma vez que o
próprio mundo se revela enquanto linguagem , o conhecimento
acerca do que fala este mesmo mundo, seus signos e o modo pelo qual se
articulam, viabiliza um compartilhamento entre homem e mundo. Algo que
como uma co-participação no processo de
semantização da natureza e do homem, viabilizado
justamente pelo mito, familiarizando ambos, integrando-os, conferindo
à realidade qualquer inteligibilidade.
Isto constitui o
que é de mais próprio do mito, sem o qual
não existiria, pois ele nasce deste imperativo. Assim, este
seria a “narrativa que faz reviver uma realidade primeva, que
satisfaz a profundas necessidades religiosas,
aspirações morais, a pressões e
imperativos de ordem social, e mesmo exigências
práticas” (ELIADE, 1972. p. 14). Uma vez
constituindo-se como discurso, a sociedade estabelece uma
digressão acerca do cosmos e de si mesma, integrando um
enredo onde todos os elementos se articulam como personagens. Essa
fabulação segue leis e se articula mediante
certos mecanismos discursivos presentes mesmo nas mais
efêmeras narrativas. Curioso notar que a mesma estrutura
discursiva que viabiliza a história das origens do mundo e
dos homens, portadora da verdade primordial dos seres, se preste
à fabulação fortuita de
representações puramente fictícias,
desprovidas de qualquer veracidade. Ora, a
diferenciação entre narrativas falsas de
narrativas verdadeiras, mitos por excelência, é
prontamente atestada. É próprio das culturas
arcaicas diferenciar narrativas míticas de
fabulações vãs, profano de sagrado.
Legitimar umas, conferir atribuições
secundárias a outras. O próprio mito se constitui
e se afirma pela diferenciação entre ambas, pelo
que é verdadeiro no discurso, uma vez que o
próprio discurso cria realidade.
Neste ponto,
convém que levantemos uma consideração
básica: se existe um autor do mito — rapsodo,
sacerdote, profeta, escritor ou dramaturgo — isso
não significa que ele seja autor no sentido estrito do
termo. Nenhuma narrativa, mítica ou não, pode ser
criada individualmente. O “ autor", ou recitador do mito,
não é senhor em seu discurso , pois sua autoria
está condicionada pelo público. Uma vez que
não se trata de um conhecimento fechado, pois que nenhuma
forma de discurso é estritamente fechada, sendo sempre
renovável, tanto em sua produção,
circulação e consumo, a autoria real de um evento
narrativo-mitológico não pode ser
atribuída efetivamente a um indivíduo por mais
criativo e influente que seja. O mito é, desse modo, uma
criação coletiva, pertencente a toda uma
coletividade. A aceitação por parte de uma
comunidade de ouvintes de uma narrativa qualquer implica no
enquadramento a um conjunto de perspectivas e valores da
audiência. O público acaba por ser co-autor da
fabulação mítica, pois, sem ele , a
mesma não teria qualquer validade, seja por sua
atribuição — externamente dada, vale
salientar — como experiência do sagrado, seja pela
simples fabulação e seus elementos constitutivos.
Uma criação que nasce sempre de um impasse
semântico entre autor e público — uma
constante teimosamente explorada pela arte.
Ora , o ritual
mítico instaura a vivência de uma nova
temporalidade. Como poderíamos pensar no tempo
presentificado nos mitos? Segundo Mircea Eliade, “o ritual
abole o tempo profano, cronológico, e recupera o tempo
sagrado do mito . Torna o homem contemporâneo das
façanhas que os deuses efetuaram in illo tempore”
( ELIADE, 1972. p. 124) . Esta ruptura com o tempo é uma
necessidade não só do indivíduo, mas
da própria cultura, pois, através dela,
perpetua-se. Uma vez que a realidade é revelada como
narrativa , todo e qualquer ente adquire uma historicidade
perceptível ao homem através do mito. O mesmo
ocorre com uma sociedade, pois seu destino também
é passado. Passado pois tudo que a constitui no presente
é uma equação de atos
pretéritos. Deste modo, torna-se transparente,
compreensível . Uma nação ou povo, em
qualquer época ou lugar, existe porque detêm uma
história. O tempo lhe confere um território. Este
mesmo tempo tem início num passado quase sempre remoto
— e neste ponto temos uma característica que
confere a fabulação mítica
plausibilidade: distanciamento, mediante ele, uma divindade ou ato
criador torna-se verossímil e aceitável, longe de
qualquer comprovação empírica
realizável — O mito recupera este passado quase
sempre glorioso e inefável. Sobretudo, recupera uma
temporalidade outra. A mencionada ruptura no tempo real das coisas, o
tempo cotidiano e estreito , torna possível a
vivência do sagrado, e para tanto o ritual se faz
necessário. O tempo fugidio, efêmero e inconstante
dá lugar ao tempo de eternidade do sonho. O mito
é essa vivência — ainda que fragmentada
— de eternidade, uma eternidade partilhada.
Porém,
se essa dimensão temporal confere ao mito sua retoricidade e
importância, justamente através dela o mito veio a
conhecer seu aparente ocaso, nas culturas ocidentais. Uma vez
vivenciado pela arte — portanto sujeito às
mutabilidades tão características da
reflexividade da arte — o mito tradicional nas sociedades
gregas do século IV a.C. começa a ser
questionado. Sofre um gradual processo de esgotamento. Ao
contrário do que se poderia pensar, a
problemática que se instaura não diz respeito
às fabulações em si, mas à
própria percepção do tempo que se
forma neste período. O drama de Eurípides e
Aristófanes mostram certa tensão com os ideais
propostos pela tradição. A arte deste
período volta-se para o cotidiano, as lutas
políticas na polis, para questões
diárias. Os temas retratados ganham a intimidade do lar,
adquirem feições mais mundanas . No drama, o
herói sublime, segundo Aristóteles, uma
imitação dos homens melhores e superiores ,
dá lugar ao personagem mais sórdido exposto pela
comédia, uma mimetização criteriosa de
uma corrupção inerentemente humana, algo inato
à própria vida, mas que somente neste ponto
poderia ser representado. Somente uma cisão radical no modo
de percepção e atuação no
tempo e no espaço poderia fomentar esta mudança .
O mito tradicional — melhor dizendo: um certo modo de
vivência do mito até então em curso
— cedia espaço para novas formas de
percepção de mundo . De certo modo,
não refletia mais os tempos e as
noções correntes. Uma nova visão de
mundo se sobrepunha à visão contida nas
mitologias clássicas.
Uma nova
percepção linear, progressiva e
histórica do tempo viria a se chocar com a
percepção temporal dos mitos antigos, pois
“ somente devido à descoberta da
História ... a assimilação radical
desse novo modo de ser no Mundo, que representa a existência
humana, que o mito pôde ser ultrapassado” ( ELIADE,
1972. p.102). Uma história formada pela sucessão
de acontecimentos, de caráter irreversível , onde
se percebe no tempo presente um amplo escopo de
atuação. Não seria errado supor que
neste preciso momento, os gregos experimentavam algo inteiramente novo
e ocidental por excelência: a troca do tempo passado pelo
tempo presente. Neste último, todas as mudanças
são possíveis. Ao contrário das
sociedades arcaicas que sempre modificavam seu passado, as sociedades
gregas percebiam o caráter irreversível do
passado, e a abertura que esta noção conferia ao
presente. Assim, o fenômeno mítico tradicional
conheceu um gradativo esvaziamento. “Os gregos foram
despojando progressivamente o mythos de todo valor religioso e
metafísico. Em contraposição ao logos,
assim posteriormente , a história, o mythos acabou por
denotar tudo o que não pode existir realmente ” (
ELIADE, 1972. p.8). Daí ter sido relacionado à
fabulação enganosa foi um passo. O
próprio racionalismo platônico e o nascimento de
uma filosofia sistemática viabilizaram sua queda. Um novo
mito se insurgia contra os mitos tradicionais: a razão e seu
potencial transformador nas sociedades. Como menciona Mircea Eliade:
“ triunfo do logos sobre o mythos. A vitória do
livro sobre a tradição oral, do documento
” ( ELIADE, 1972. pg.137). Com a
produção dramática deste
período não seria diferente. A comédia
de Aristófanes e Menandro operava diretamente sobre o
cotidiano, em total desprendimento com os temas mitológicos
tradicionais, esgueirando-se por uma vereda na qual o teatro latino de
Plauto e Terêncio iria embrenhar-se: retratar o cotidiano, as
tramas familiares, as intrigas e os costumes. O cristianismo dos
séculos subseqüentes — embora miticamente
fundamentado — viria a se firmar em
oposição ao pensamento mítico
tradicional das sociedades da Antigüidade. A modernidade que
surgia, mais adiante, sepultaria definitivamente o mito e suas
variantes .
Aqui temos algo que
merece destaque: o mito é a primeira forma
sistemática de narrativa. Em todas as culturas primitivas, o
mito precede qualquer desenvolvimento de
fabulação mais organizada. O que se nota
é um “descolamento” onde uma determinada
narrativa perde seu referencial sagrado e adquire um valor puramente
estético. Neste caso podemos apontar, a título de
exemplo, a remanescente produção
literária dos gregos antigos. Se as
descrições dos Deuses feitas por Homero e
Ésquilo tiveram uma considerável
importância na tradição cultural do
Ocidente, isso ocorre não por seu referencial religioso e
como fabulação da origem do mundo e dos deuses,
mas pelo seu valor puramente literário. Assim, podemos ver
um movimento de autonomia da narrativa em relação
ao seu referencial mítico. Logo, o mito torna-se
fabulação, tornando-se parte da
tradição narrativa ocidental. Assume um valor
puramente estético. Não mais verdades
originárias.
Nesse ponto,
poderíamos finalmente pensar num esvaziamento definitivo do
mito enquanto experiência do sagrado, pela
propagação de uma experiência
estética voltada para uma forma de texto narrativo puramente
imaginário, desde já fantasioso, sem qualquer
compromisso com a verdade primeira das coisas, de consumo meramente
estético. As grandes mitologias reduzidas aos romances, aos
filmes, animes, mangas, cartuns, peças
publicitárias, entre tantos que abundam nos dias atuais.
Tal noção revela-se problemática por
dois motivos. Primeiro, não podemos excluir uma
função estética às
narrativas nas sociedades arcaicas. Uma vez diante de um mito , num
ritual em curso, dificilmente um homem arcaico estaria privado de uma
apreciação estética. Se a totalidade
da produção artística das sociedades
arcaicas tinha um caráter puramente mítico e
religioso, não podemos ser ingênuos a ponto de
supor que não houvesse, em paralelo, uma
apreciação estética. Segundo,
não podemos, igualmente, inferir que as narrativas
contemporâneas estejam livres de qualquer
função mítica, ainda que latente.
Ocorre, sobretudo, certa impregnação do suposto
mitológico nas mesmas, onde o mito sobrevive por vezes
camuflado.
Um olhar mais
atento sobre a produção dramática
contemporânea suscita uma questão mais profunda:
as narrativas contemporâneas, presentes na cinematografia,
cartuns, animações infanto-juvenis, entre tantas,
possuem alguma função mítica? Se o
mito conheceu seu ocaso, como pensá-lo senão
camuflado? Neste ponto o estudo de Mircea Eliade (1972) revela-se
lapidar. Segundo o autor, os mitos nas sociedades
contemporâneas encontram-se tão vivos quanto nas
sociedades arcaicas. Seguem uma dinâmica inteiramente
diversa, porém com igual importância. Uma vez que
as narrativas consumidas massivamente nesta modernidade tardia
estão despojadas de seu antigo significado religioso, como
vislumbrar nelas uma pista de um fenômeno mítico
subjacente?
Primeiro, faz-se
necessário que estabeleçamos paralelos
palpáveis entre o mito nas sociedades primitivas e as
narrativas contemporâneas. Como mencionamos anteriormente,
nas sociedades arcaicas, o mito gozava de um prestígio quase
mágico. Hoje, ele goza de um princípio
estético. Se olharmos mais a fundo, perceberemos que este
princípio estetizante não é, por isso,
menos mágico. A título de exemplo,
poderíamos confrontar dois fragmentos aparentemente
tão dispares: uma cena de um “ clássico
” dos cartuns: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller com
outro clássico do pintor italiano setecentista Agnolo
Bronzino, intitulado Cristo Deposto.
Em ambos, temos uma temática recorrente: o
sacrifício de um homem com vistas a redimir a humanidade .
Dor, morte e ressurreição de um homem singular
— um exemplo tão nítido da Jornada do
Herói exposta por Vogler e Campbell.
No primeiro caso, o
herói sacrifica-se para impedir uma catástrofe
planetária — um acontecimento puramente ficcional.
No segundo, um acontecimento sagrado, amplamente exposto nos
Evangelhos.
O que irmana estas
representações distintas não
é propriamente a existência concreta dos fatos por
elas representados, mas o sentido, os paradigmas traçados.
Um sentido de mundo, de cosmos, de vida. Um modo singular de humanizar
o mundo, atualizá-lo, conferindo-lhe
significações. A ocorrência, real ou
não, dos fatos expostos em ambas torna-se
secundária. Um simples detalhe, nada mais que isso. O que
interessa realmente é a fabulação, o
discurso em si mesmo. A missão de Cristo e do personagem
Super-homem reveste-se de um conteúdo mágico e
igualmente magnífico.
Ora , uma realidade
simbólica em franco processo de
virtualização, aliada à
compressão acelerada do tempo-espaço, deixa em
evidência um processo que se faz presente a quase um
século: a transposição perceptiva do
tempo para esferas de atuação inteiramente
fluidas. O cinema e outras mídias , ainda em meados do
século passado, detonaram um processo que nos dias atuais
parece apenas principiar. Se nas sociedades antigas, o mito
fundamentava o mundo, nos dias atuais ele é o
próprio mundo. Ou seja, as narrativas
contemporâneas refletem o mundo, tornando o
próprio mundo uma fabulação.
Imiscuir-se num universo fabuloso e conseqüentemente
fantástico, algo tão presente na
experiência mítica, é revivido pelo
consumo das narrativas contemporâneas. Estas prolongam para
outro plano a narrativa mitológica. Não se trata
mais de um passado lendário, mas um espaço
divino, inteiramente sobreposto ao espaço presente. Assim,
tem-se camuflado o mito. Mesmo a produção mais
cotidiana e efêmera — neste caso podemos incluir o
jornalismo, a publicidade, os programas de variedades, entre outros
— se utilizam de elementos míticos, tão
enraizados em nossa cultura. Nossa própria esfera social
espelha esta fábula, constituindo-se como arena para um
enredo, onde perspectivas e valores se potencializam. Aliás,
todas as suas personalidades, anônimas ou
notórias, a moda em curso, os costumes, a ética
das relações, o próprio consumo,
acabam por engrenar algum tipo de narrativa. Signos de uma cadeia
discursiva mais ampla . Todos seus personagens , celebridades ou
não, enquadram-se numa historicidade onde sentidos
são insistentemente reafirmados. Trata-se, sobretudo, de
esquemas invisíveis e pré-definidos.
O anseio do
público espectador, dos círculos de leitores de
cartuns, dos usuários dos games, do conglomerado de
telespectadores e mesmo de freqüentadores mais fortuitos numa
performance, é sempre o mesmo, não importa se
hoje ou em meados do século XX: “uma revolta
constante contra o tempo histórico, o desejo de atingir
outros ritmos temporais além daqueles em que somos obrigados
a viver e a trabalhar” ( ELIADE, 1972. p.164).
O que se poderia
chamar de um perfeito comportamento mitológico. Tanto os
rituais nas sociedades arcaicas quanto as narrativas
contemporâneas oferecem sempre o mesmo: a mesma ruptura
contra o tempo, o mesmo mergulho num espaço-tempo outro, uma
mesma vivência onírica do eterno .
Supor o ocaso do
mito nas sociedades modernas é supor o ocaso da
própria civilização. O mito
simplesmente subsiste oculto nas mais diversas atividades humanas.
Subsiste, pois é imprescindível à
existência social, sendo constitutivo do ser humano.
É sempre uma mesma necessidade do indivíduo em
extraviar-se; um mesmo salto às cegas sobre si mesmo.
Pedro
Carvalho Murad - Mestre
pelo Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e Cultura - ECO/UFRJ. Dramaturgo,
autor de mais de duas dezenas de peças. Bacharel em
filosofia pelo IFCS/UFRJ.
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